Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

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LIVRARIA
CASTRO
E SILVA

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CANCIONEIRO
DE COIMBRA

em que fe contSm poefias portuguefas,

& nos saudofos campos infpiradas,

defde o feculo XV ate aos

noffos tempos, com uma

fylva de romances

& cantigas tra-

dicionais




Efcolhidas por oAffonfo Lopes *Vieira

Franca Amado. Editor & impreflbr

COIMBRA

1918



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CANCIONEIRO
DE COIMBRA



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CANCIONEIRO
DE COIMBRA

em que fe contem poefias portuguefas,

& nos saudofos campos infpiradas,

defde o feculo XV ate aos

noffos tempos, com uma

fylva de romances

& cantigas tra-

dicionais




Efcolhidas por cAffonfo Lopes TJieira

M
Franca Amado. Editor & imprefibr

COIMBRA

1918



915'



antigo poeta portugues houve Jorge de
Montemor que em moco se mudou para Cas-
tela e Id viveu e compos, em castelhano, a sua tarn
celebre Diana . Mas quando porfim nosfala de
Coimbra e relembra a <fermosa nbeyra , subito
escreve em lingua portuguesa e, com sentimento e
linguagem nossa, lindas palavras encontra : O
dia que te meus olhos nao viam, jamah se alevan-
tavam a cousa que Ihes desse gosto ... Ausentes
de Coimbra, toaos que a amdmos somos um pouco
como Jorge de Montemor, porque basta que ela
se nos levante na memoria para que na alma
acorde a ternura que ela apenas saoe despertar.
Para consolo das nossas saudades, e em honra e
louvor de Coimbra, se ordenou este livrinho de
oracoes lusas, em que sua bele^a e celebrada.
Bele^a composta de sortilegios, de incantacao
envolvedora e vaga, desde sempre os poetas a
sentiram, e elafoi a Bem-Amada que nos humidos
longes da Paisagem Ihes ofertou o Filtro das
saudades portuguesas. No surdo e Jluido esplen-
dor do sen Ar de perolas desfeitas em aladas
neblinas, a alma dos poetas ajinou-se e canton,
casando-se ao adagio das cousas ; porque so at
podem os sonhos aorir a lu^ sens olhos misticos,
sem que as melindrosas pupilas se magoem.
Musa de Portugal, meiga Dona dos chouposjinos
e das claras dguas, este livro pertencc-lhe, e r^a.



luminosa penumbra da sua scisma ecoam as vo^es
que a cantaram, embalacadas na melodia branda
que ela exala. Terra nostdlgica, merce da ema-
nacao da sua propria alma ela nos resta como
uma das tarn poucas cidades do mundo onde o
Sonho persiste, por mais que os homens cerrem
os olhos a sua magia ou ousem mascarar-lhe o
semblante. Assim Florenca - sua irma pelo
misterio da paixao que inspira aos que a adoram
-guarda intact a a Jlor do Sonho invencivel. . .
De Coimbra juntou-se neste livro o que de mais
sentido e belo ela sugeriu aos seus amorosos o'
mesmo e di\er : muitas das mais lindas e fundas
expressoes da nossa Poesia e todos Ihe entoam
a loa de amor, com seus proprios amores a con-
fundindo, por modo que o Lirismo Portugues a
tern por madre e senhora sua. Jdmais em tarn
saudosos campos floresceram tantas saudades.
E como saudades sempre vivas, nela demoram as
presencas da grande Amada e da Santa suave,
doces sombras que neste livro perpassam. Sau-
dosos campos: da vossa alma este Cancioneiro
nasceu. E para quern vos ama se ordenou o livri-
nho de oracoes.

Agosto de 1917.

A. L. V.



E finalmente he esta cidade
como alma deste Reyno, coroada
& sempre leal, & hua fermosa
imagem. . .

FR. HEITOR PINTO.



'




GARCIA DE RESENDE

TROUAS A MORTE DE DOA YNES DE CASTRO

que elrrei Do Afonso o quarto, de Portugal, matou e

Coimbra, por o principe Dom Pedro, seu filho,

a ter como mulher, e, pelo bem q the quena,

nam queria casar

ENDERECADAS HAS DAMAS

Senhoras, salgum senhor
vos quiser bem ou servir
quern tomar tal servidor,
eu Ihe quero descobrir
o gualardam do amor.
Por sua merce saber
o que deve de fazer,
veja que fez esta dama
que dessy vos daraa fama
sestas trovas quereis ler.

FALA DONA YNES

Qual seraa o coracam
tarn cru e sem piadade,
que Ihe nam cause paixam
hua tam gram crueldade,
e morte tam sem rrezao !
Triste de mym, ynocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fee, amor
ho principe, meo senhor,
me mataram cruamente.



12 Cancioneiro de Coimbra



A mynha desaventura,
nam contente dacabar-me,
por me dar mayor tristura,
me foy por em tantaltura
para dalto derribar-me.
Que se me matara alguem,
antes de ter tanto bem,
em tays chamas nam ardera :
pay, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguem.

Eu era moca menina,
per nome dona Ignes
de Crasto ; e de tal doutrina
e vertudes, quera dina
de meo mal ser ho rreves.
Vivia sem me lembrar,
que paixam podia dar,
nem dala ninguem .a mym ;
foymo principe olhar,
por seu nojo e minha fym.

Comecou-ma desejar;
trabalhou por me servir ;
fortuna foy ordenar
dous coracoes conformar
a hua vontade vir.
Conheceo-me ! conheci-o !
quys-me bem 1 e eu a elle !
pefdeo-me ! tambem perdio-o f
nunca tee morte foy mo
o bem que, triste, pus nele.

Dey-lhe minha liberdade ;
nam senty perda de fama ;
pus nele minha verdade ;
quys fazer sua vontade,
sendo muy fremosa dama.
Por mestas obras paguar,
nunca jamais quys casar ;
polo qual aconselhado
foy elrey, quera forcado,
polo seu de me matar.



Cancionciro de Coimbra



Estava muy acatada ;
como princesa servida ;
em meos pa^os muy honrada :
de tudo muy abastada ;
de meo senhor muy querida.
Estando muy devaguar,
bem fora de tal cuidar,
em Coymbra de seseguo
polos campos do Mondeguo
cavaleyros vy somar.

Como as cousas, qua de ser,
loguo dam no cora<jam,
comecey entrcstecer
e comiguo soo dizer :
i estes omees d'onde yram !
E tanto que preguntey,
soube loguo queera elrei ;
quando o vi tarn apressado,
meo coracam trespassado
foi, que nunca mays faley.

E quando vy que decia,
sahy ha porta da sala,
devinhando o que queria,
com gram choro e cortesya
Ihe fiz hua triste fala.
Meos filhos pus derredor
de mym, co gram omildade,
muy cortada de temor
Ihe disse : avey senhor,
desta triste piadade !

Nao possa mais a paixam
que o que deveys fazer !
metey nisso bem a mam
que e de fraco coracam
sem porque mat^r molher.
Quanto mays a mym, q dam
culpa, nam sendo rrezam
por ser may dos ynocentes,
quante vos estam presentes,
os quaes vossos netos sam.



14 Cancionetro de Coimbra



E tem tarn pouca ydade,
que senam forem criados
de mym soo com saudade,
e sua gram orphindade,
morreram desemparados.
Olhe bem quanta crueza
faraa nisto vossaltesa ;
e tambem, senhor, olhay,
pois do princepe sois pay
nam Ihe deis tanta tristeza.

Lembre-vos o grande amor,
que me vosso filho tem,
e que sentiraa gram dor
morrer-lhe tal servidor,
por Ihe querer grande bem.
Que salgu erro fizera
fora bem que padecera,
e questes mhos ficaram
onaaos tristes, e buscaram
quS deles paixam ouvera.

Mas poys eu nunca errey,
e sempre merecy mais,
deveys, poderoso rrey,
nam quebrantar vossa ley,
que, se moyro, quebrantays.
Usay mais de piadade
que de rrigor nem vontade !
avey doo senhor, de mim,
nam me deis tarn triste fim,
pois q nunca fiz maldade.

Elrrei, vendo como estava,
ouve de mym compaixam
e vyo, o que nam olhava,
que eu a ele nao errava,
nem fizera traicam.
E, vendo quam de verdade
live amor e lealdade
hoo principe, cuja sam
pode mais a piadade
que a determinacam.



Cancioneiro de Coimbra i5



Que semelle defendera,
e a seu filho nao amasse,
e Ihe eu nao obedecera,
entam com rrezam pode>a
dar-md moorte, que ordenasse.
Mas, vendo que nenhu ora
des que nacy ate*gora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou
ixiy-se pola porta fora,

Com seu rosto lagrimoso,
co proposito mudado,
muyto triste, muy cuidoso,
como rrey mui piadoso,
muy cristam e esforcado.
Hu daqueles que trazia
comsigo na companhya,
cavaleiro desalmado,
detras dele, muy yrado,
estas palavras dezia :

Senhor vosa piadade
he dina de rreprender
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lagrymas dua molher.
E quereis cabarreguado,
com filhos, como casado,
este, senhor, vosso filho ?
de vos mais me-maravilho,
que dele quee namorado.

Se a loguo nam matais,
nam sereis nunca temido,
nem faram o que mandays,
poys tarn cedo vos-mudays
do conselho que era avido.
Olhay quam justa querela
tendes pois por amor dela !
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.



1 6 Cancioneiro de Coimbra



Com sua morte escusareis
muytas mortes, muytos danos ;
vos, senhor, descanssareis,
e a vos e a nos dareis
paz para duzentos annos.
O principe casaraa
filhos de ben^am teraa
seraa fora de pecado ;
caguora seja anojado
amanha Ihe esqueceraa.

E ouvyndo seu dizer
elrrey ficou muy torvado,
por se em taes estremos ver,
e que avya de fazer
ou hu, ou outro . . . fonjado.
Desejava dar-me vida
por Ihe nam ter merecida
a morte nem nenhQ mal ;
sentya pena mortal
por ter feyto tal partida.

E vendo que se Ihe dava
a ele toda esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse aaquelle que bradava :
minha tencam me desculpa :
Se o vos quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
a queu nisso nam mando nada,
nem vejo he essa coytada
porque deva de morrer.

Dous cavaleyros yrosos,
que taes palavras Ihouvira
muy crus e nam piadosos,
perversos, desamorosos,
contra mym rijo se-vyram !
Com as espadas na mam
matravessam o coracam !
a confissam me-tolheram !
este he o gualardam
que meos amores me deram.



Cancioneiro de Coimbra 17



GIL VICENTE

DA COMEDIA SOBRE A DEUISA DA CIDADE
DE COIMBRA

Comedia representada ao muyto alto, poderoso, & nao
menos Christianissimo Rey dom Joao o terceyro em Por-
tugal deste nome. Estando na sua muylo honrrada nobre
& sempre leal cidade de Coimbra. Na qual comedia se
trata o que deue significar aquella Princesa, Liao, & Ser-
pente, & cale% ou fonte que tern por deuisa, & assi este
nome Coimbra donde procede, & assi o nome do rio
& outras antiguidades a que nao he sabido ver-
dadeyramente seu origem, tudo composto
em louuor & honrra da sobredita
cidade. Feyta & representada
era do Senhor MDXXVII.



ARGUMENTO
PEREGRINO

Pois que o honor do mundo presente
se daa com razam aa antiguidade,
infinita honrra tem esta cidade
segundo se escreue copiosamente.
E a honrra mayor
he, que o altissimo Emperador
Yossas Magestades, a sacra Emperatriz,
a alta Duquesa dona Breatiz,
se sois sacros fructos, daqui foy a flor.

Tambem a Raynha que he Dinglaterra
e a verdadeyra Raynha de Franca,
a quem Deos Deos nosso dee tanta bonanca
como daa Mayo aas flores da serra.
O lucido Infante,

Rey duque Daustria, Eytor melitante,
e o sacrosancto nosso Cardeal,
os nobres infantes, bem de Portugal
daqui procedestes, e his adiante.



1 8 Cancioneiro de Coimbra



Assi que os principes da Christandade
que agora reynam, daqui floreceram,
aqui jaz o Key de que procederam,
e que o fez Rey senao esta cidade.
Porem muyto antes,
ante que ouuesse aqui nunca habitantes,
sendo isto serra de grande montanha,
no tempo que Merida veo a Hespanha,
e os monies Darmenia eram de gigantes.

Veo de laa aqui habitar
hum feroz saluagem gigante senhor,
e por ser historea de gosto e sabor,
ordena o autor de a representar.
Porque vejais

que cousas passarao na serra onde estais
feitas em Comedia muy chaam e moral
e os mesmos da histona polio natural,
e quanto falaram, nem menos nem mais.

Por ella vereis porque esta cidade
se chama Coimbra, e donde Ihe vem
o Liam, e Serpe, e Princesa que tern
por sua deuisa ja danteguidade.
E por prouas certas
vereis donde veo, e de que planetas
que falam aqui rouquenhos os mocos,
e todalas mocas tern curtos pesco<jos,
e maos rebuchudas, e as vnhas pretas.

Outro si as causas porque aqui tem
os clerigos todos muy largas pousadas,
e mantem as regras das vidas casadas
desta anteguidade procedem tambem.
Sem serem culpados,
porque sam leis dos antigos fados,
cousa na terra ja determmada,
que os sacerdotes que nam tem ninhada
de clerigozinhos, sam escomungados.

E a causa porque as molheres daqui
sam milhor casadas que as Deuora monte,
porque esta comedia vos mostraraa a fonte



Cancioneiro de Coimbra 19



de todalas cousas, que ouuistes aqui.
Ja sabeis senhores

que toda a Comedia comeca em dolores
e inda que toque cousas lastimeyras
sabey que as tarsas todas chocarreyras
nam sao muyto finas sem outros primores.

Entraraa primeyro hum homem laurador
que em tempo daquelle saluage moraua
ca noutra serra, onde soo laurava
com filhos e filhas e grande dolor.
O qual se lamenta

da aduersa fortuna em que corre tromenta,
e porque a Comedia vay tarn declarada
e tarn raso o estilo nam serve de nada
c mais argumento, e cerro a emmenta.

DA PARS A DOS ALMOCREVES

Esta seguinte farsa foy feyta & representada ao muyto
poderoso & excelente Rey dom loam o terceyro em Portu-
gal deste nome na sua ctdade de Coimbra, na era do Senhor
de MDXXVI. Seu fundamento he, que hum fidalgo
de muyto pouca renda usaua muyto estado, tinha
capelam seu, & ouriuef sen, & outros officiaes,
aos quaes nunca pagaua. E uendose o seu
capelam esfarrapado & sem nada
de seu, entra di^endo

Pois que nam posso rezar
por me ver tam esquipado,
por aqui por este arnado
quero hum pouco passear
por espacar meu cuydado.
E grosarey o romance
de yo me estaua en (.oimbra
pois Coimbra assi nos cimbra
que nam ha quern preto alcance.

Grosa

Yo mestava en Coimbra
cidade bem assentada
polos campos de Mondego.
nam vi palha nem ceuada.



2o Canctoneiro de Coimbra



Quando aquilo vi mezquinho
entendi que era cilada
contra os caualos da corte
e minha mula pelada.
Logo tive o mao sinal
tanta milhaam apanhada
e a peso de dinheyro
oo mula desemparada.
Vi vir ao longo do rio
hua batalha ordenada
nam de genres, mas de mus
com muyta raya pisada,
a carne estaa em Bretanha
e as couues em Biscaya.
Sam capelam dum fidalgo
que nam tem renda nem nada,
quer ter muytos aparatos
e a casa anda esfaymada.
Toma ratinhos por pages
anda ja a cousa danada,
querolhe pedir licenca
pagueme minha soldada.



BERNARDIM RIBEIRO

DA EGLOGA QUINTA

Toda a pena me he presente
e a gloria de mi se alhea,
e posto que sam doente
pera este mal nao consente
haver arte Apolinea.
Estes ares sao mortais
e o que mais me desbarata
e da dores desiguais,
he lembrar-me os sinceirais
de Coimbra, que me mata.

E vivendo triste, cego,
nam sey, mezquinho, que fac;a ;
estou metido em tal pego
que, sospiro por Mondego



Cancioneiro de Coimbra 21



e choro por a Rega^a.
O meu mal e tam sobejo
que parte nao sey de mi,
e finjindo no desejo,
como que a Mpndego vejo
muitas vezes digo assi :

6 Mondego, meu amigo
e senhor das claras agoas,
a ti so meus males digo,
minhas magoas vam contigo,
contigo vam minhas magoas.



CRISTOVAM FALCAO

DAS TROVAS DE CRISFAL

Desque aqui com meu cuidado
me estive fazendo guerra,
sendo o dia ja passado
vi-me levado da terra
contra as nuves alcado.
Entao, como ave voante,
de quern me alii trouxera
sonhei que levado era
contra onde a tarde ante
o sol vi que se posera.

Indo nam com menos dor,
em que ja com mais sossego,
os ventos me forao por
depois de passar Mondego
sobre as serras de Lor
Vao alii grandes montanhas
de alguns valles ahertas,
todas de soutos cubertas,
aos naturais estranhas
mas d saudade certas.

Junto de hiia fonte era
o lugar onde fui posto,
onde se-lo nao quisera,
sendo bem lugar de gosto



22 Cancioneiro de Coimbra



pera quern gosto tivera ;
mas a mim nem o passado
nem o que me ( era presente
nada me nao fez contente,
que nisto o magoado
he como o muito doente.

Cuberta era a fonte
de tao fresco arvoredo,
que nao sei como o conte,
mui quieto e mui quedo,
por sen antre monte e monte ;
a noite de ventos muda,
como saudade escolha,
e, porque mais prazer colha,
chovia agoa meuda
por cima da verde folha. . .



FRANCISCO DE SA DE MIRANDA

CARTA A PERO GARVALHO

No lugar onde me vistes
De agua e do monte cercado
E de outros males que ouvistes,
Tenho mais dias contado
De ledos que nao de tristes.
Isto que ora ouvis de mim,
Nao sei se ouvireis d'alguem.
Buscai, perguntai sem nm
No desejado Almeirim
No farto de Santarem.

Que tencao todos tomastes
A' terra que me criou
De que tanto praguejastes ?
Por que ? Que vos acoutou
Da peste com que i chegastes.
Fostes mal agasalhados ?
Nao, certo, que te as fazendas
Vos davao parvos honrados.
Pois, por que ? Porque os privados
Tinheis longe vossas rendas ?



Cancioneiro de Coimbra 23



O que eu por parcialidade
Nem outros respeitos digo :
Da antiga e nobre cidade
Som natural, som amigo,
Som porem mais da verdade.
Como vos partistes de i,
Logo abrigados achei
Em que me desencolhi.
Seguramente dormi,
Seguramente velei.

Cidade rica do santo
Corpo do seu rei primeiro
Que ainda vimos com espanto,
Ha tam pouco, todo inteiro
Dos anos que podem tanto.
Rei a quern deus se mostrou,
Rei que tantos reis venceu,
Rei que t^is reis nos deixou ;
O bom filho i se lancou
Que te Sivilha correu.

Outro rei, tanto sem mal
Que Ihe empeceu a bondade,

quarto de Portugal,
Qual teve ele outra cidade
Tam constante e tam leal ?
Qual a sua fe salvou

Por tanto perigo e medo ?
Tais estremos esperou ?
Primeiro as chaves mandou
O' rei ja morto em Toledo.

Mas torno a"quele abrigado
Em que me acolhi aos ventos.

1 depois de em mim tornado
Que rir ! que esmorecimentos
De tempo tao mal gastado !

E os fogos que ora se acendem,
As prestezas das mudancas,
Males que longe se estendem
A's vidas curtas defendem
Tomar longas esperancas.



24 Cancioneiro de Coimbra



Gigues na grande abastanca
Que de toda a parte ajunta,
(Juidando em tanta possan^a,
Inchado a Apolo pergunta
Pola bemaventuranca.
Tal fumo Apolo entendendo,
Julgou por milhor estado
O de Aglao que, pastor sendo,
Se vai cantando e tangendo
Olhos somente 6 seu gado.

Oh ricos ! que esta riqueza
Esta no contentamento.
Mais tern quern mais a despreza.
Nao foge o rico avarento,
Por mais que fuja, a pobreza.
Onde mais pode caber,
Sinai e de lugar vao
Que trabalhao polo encher;
Que os coracois hao de ser
Ricos, que os cofres nao.

Por faminto que venhais,
Morto de sede e de frio,
Fogo onde quer o achais,
Da vos da sua augua o rio,
E as vezes de que comais.
A cobiqa sem deten9a,
Ua mao toma, outra pede ;
Nunca espereis que se venca;
Sinai de ua ma doenca,
Quanto mais agua, mais sede !

Cobica da boca aberta,
Isto que te assi parece
E tras que andas tanto alerta,
Luz de fora e resplandece,
Dentro nao ha cousa certa.
O juizo e rezao ata,
Tudo fica escuro e em erro,
A's leis e a deus desacata,
Do tarn mole ouro e da prata
Faz duras prisois de ferro.



Cancioneiro de Coimbra 25



Entrada por nossos peitos,
Fez neles estragos tais
Que ermos jazem, desfeitos,
Abertos de mil portals,
A todo vento sujeitos.
Que nao fard quern trocar
Nos fez a paz pola guerra ?
Fez ums os outros matar ?
Passou de vivenda 6 mar
Homens naturals da terra ?

Escravos mais que os escravos,
Por rezao e por justica
Deixai vos de vossos gabos,
Que vos vendeu a cobi^a
A mar bravo e a ventos bravos I
Espritos vindos do ceo,
Postos em larxjos na pra<pa,
Com que nadas vos venceu I
Por que nadas vos vendeu !
Milhor fora antes de gra$a !

Metals de tarn baixa liga,
Que nos tarn alto escondera
Natureza mai e amiga,
Antre nos e eles posera
Tanto cansaco e fadiga.
Assl maior apetito
Disserao cobica e enveja
Em fim seu feito e seu dito !
Criado pera al o espirito
Isto so sonha e deseja.

E porem, que sao ? Engano !
Que mais ua mai fizera ?
Afastava nos o dano
O's filhos que d vida dera,
Acesa do amor humano.
Mas que pode aproveitar
Se Ihe fazemos tal guerra
Co contino trasfegar,
Ora revolvendo o mar,
Ora revolvendo a terra?



26 Cancioneiro de Coimbra



Nas minas altas que digo,
Buscando a terra te o centre,
Que faz o homem imigo
Do seu descanso la dentro,
Com tal trabalho e perigo ?
Que cegueira e que porfia !
Haja vergonha a rezao!
Haja a alma que mais devia!
Que deixao atras o dia,
Pola noite avante vao.

Nao tern cabo homens ousando
Da rezao em desemparo.
Tudo forao apalpando :
For este ar solto e raro,
Houve quern fosse voando.
Gente que nao teme nada
Com tudo se desafia ;
For mares sem fundo nada,
Passou a zona torrada,
Anda por passar a fria.

Nao e pera tanto a vida !
Quanto milhor escolheu
Quern na dorna ao sol volvida
Muito mais rico morreu
Que Creso, que Crasso e Mida t
Fugindo Crates ao ouro,
( Como um covardo ao ferro
E as cousas de mao agouro )
Lancou ao mar gram tisouro ;
Quern fard agora tal erro ?

Por fonja a cidade entrada,
Que responde ao seu imigo
Bias, que tem tudo em nada ?
Tudo o men leva cotnigo.
Deixa a fortuna espantada.
O's d'Esparta naturais,
Responde Apolo a seu rogo :
Se a liber dade estimais,
Velai vos d'este ouro mais
Que do ferro nem do fogo.



Cancioneiro de Coimbra 27



Do grande Epiteto o nobre
Spirito, o so livre e franco,
N'um corpo coitado e pobre,
Escravo e ainda manco,
Quanta de riqueza encobre !
Da sua baixa casinha
Ledo sai, ledo a ela torna,
O mesmo que ia, esse vinha.
Casa que porta nao tinha,
Que mais montava que a dorna ?

Jesu Gristo busca obreiros,
( Deixemos contos passados )
Os seus quer de todo inteiros ;
Dos cora^ois alugados,
Poucos sao os verdadeiros.
Gente de vontade dura
Brada ele, que nao andais
Em quanta esta lu? vos dura?
Nao vos tome a noite escura,
Antes que vos acolhais I

Nao seria eu, isto vendo,
De juizo e rezap sa,
Andar me os dias perdendo ?
Comecei de ante menha,
Nao sei que andava fazendo,
la me enjoado assi
O' torn por onde os mais andao.
Olhe cada um por si,
Que estes bens falsos de aqui
Se nao sao mandados, mandao.

Nao se poi ao haver termo,
A esperanca e saborosa.
Eu contentei me d'este ermo
Pola rezao da raposa
Que deu 6 liao enfermo :
Amiga, senhor liao,
Ollio ca e olho la,
Vejo pegadas no chao
Que todas pera la vao,
Nenhua vem pera ca.



28 Cancioneiro de Coimbra



Essa Circes feiticeira
Da corte tudo trasanda ;
Um faz ua on$a ligeira,
Outro faz lobo que manda,
Outro cao que a ca$a cheira.
Cantao 6 passar sereas
Que fazem adormecer.
Correndo todas as veas
De sono e tal sabor cheas,
Nao se pode homem erguer.

Som rico se isto sostenho,
Nao como o estoico entende,
( Inda a tanto ser nao venho )
Que inteiro de si so pende :
Eu no que tenho assaz tenho,
Mas do com que folgo, rim
Outros, terao sua escusa.
Ja vos dei muitas por mim
E estas cousas sao em fim
Como d'elas homem usa.

Sejao rezois poderosas :
Olhai que o ferro se deu,
Pera cousas proveitosas;
Despois este meu e teu
Fez d'ele as armas danosas.
O fogo que nos fpi dado
A's tantas necessidades,
Que ser nao pode estimado,
Fard, e fez no passado,
Em po ja muitas cidades.

D'este engenho que diremos
De que nos tais gabos damos,
Com que tudo cometemos ?
Quantas vezes d'ele usamos
Mai, e como nao devemos !
Dom do ceo nosso especial !
E veu a ser todavia
Este homem recional
Tarn agudo no seu mal
Como foi na artelharia.



Cancioneiro de Coimbra 29



De tantos inconvinientes
Quern seri livre, em que acorde ?
Diz sao Paulo : Ponde mentes
Se um ao outro assi morde
Que vos desfareis aos denies.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela e sa,
Bern empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre Ihe chamou irma !

Dou vos Enio por autor:
Quern nao sabe usar do ocio
Cansa e anda d'arredor,
Que vem a ter mats negocio
Que um grande negociador.
Que 6 menos sabe apos que anda,
Estoutro a si nao se entende,
Quanto anda, tanto desanda,
Nao se obedece nem manda,
Ora se apaga, ora acende.

Ve-lo ir, ve-lo tornar,
Ve-lo cansar e gemer
E em busca de si andar,
Cobrar a cor e perder.
Que se nao pode topar!
Mas eu, porque passa assi,
Que seja muito, direi :
Dias ha que me escondi,
Go que li, co que escrevi,
Inda me nao enfadei.



LUIS DE CAMOES

CANCAO IV

Vao as serenas agoas
Do Mondego descendo
E mansamente ate o mar nao param;
Por onde as minhas magoas,
Pouco a pouco crescendo,
Para nunca acabar se comecaram.



3o Cancioneiro de Coimbra



Alii se me mostraram
Neste logar ameno
Em que inda agora mouro,
Testa de neve e d'ouro,
Riso brando e suave, olhar sereno,
Hum gesto delicado
Que sempre na alma me estara" pintado.

Nesta florida terra
Leda, fresca, *. serena,
Ledo e contente para mi vivia ;
Em paz com minha guerra


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