Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

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Glonoso com a pena
Que de tao bellos olhos procedia.
De hum dia em outro dia
O esperar me enganava.
Tempo longo passei :
Com a vida folguei

So porque em bem tamanho se empregava,
Mas que me presta jd
Que tarn fermosos olhos nao os ha ?

Oh ! quern me alii dissera
Que de amor tao profundo
O fim pudesse ver eu algum'hora !
E quern cuidar pudera
Que houvesse ahi no mundo
Apartar-me eu de vos, minha Senhora !
Para que desde agora
Jd perdida a esperanca,
Visse o vao pensamento
Desfeito em hum momento
Sem me poder ficar mais que a lembranca,
Que sempre sera firme
Ate no derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
Que de aqui levar posso
E com que defender-me triste espero,
He que nunca sentia,
No tempo que fui vosso,



Cancioneiro de Coimbra 3i



Quererdes-me vos quanto vos eu quero.

Porque o tormento fero

De vosso apartamento,

Nao vos dara" tal pena

Como a que me condena ;

Que mais sentirei vosso sentimento

Que o que minha alma sente.

Morra eu, Senhora, e ficai vos contente.



Tu, Can9ao, estards
Agora acompanhando
For estes campos estas claras agoas,
E por mi ficards
Com choro suspirando ;
Porque ao mundo, dizendo tantas magoas,
Como uma larga historia
Minhas lagrimas fiquem por memoria.



SONETO

Doces e claras agoas do Mondego,
Doce repouso de minha lembran^a,
Onde a comprida e perfida esperantja
Longo tempo apos si me trouxe cego.

De vos me aparto, si, porem nao nego
Que inda a longa memoria, que me alcar^a,
Me nao deixa de vos fazer mudan^a,
Mas quanto mais me alongo, mais me achego.

Bern poderd fortuna este instrumento
Da alma levar por terra nova e estranha,
Offerecida ao mar remote, ao vento.

Mas a alma que de ca vos acompanha,
Nas asas do ligeiro pensamento
Para vos, agoas, voa, e em vos se banha.



32 Cancioneiro de Coimbra



DOS LUSIADAS

DO CANTO III

XCVI

Eis despois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Affonso estirpe nobre e dina ;
Com quern a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina :
Com este o reino prospero florece
(Alcan9ada j& a paz aurea divina ),
Em constituicoes, leis e costumes,
Na terra ja tranquilla claros lumes.

xcvir

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso officio de Minerva ;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fertil herva,
Quanto pode de Athenas desejar-se
Tudp o soberbo Apollo aqui reserva ;
Aqui as capellas da tecidas de ouro,
Do baccharo e do sempre verde louro.

EPISODIO DE DONA IGNES DE CASTRO

cxx

Estavas, linda Ignes, posta em socego,
De teus annos colhendo doce fruito,
Naquelle engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna nao deixa durar muito ;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos monies ensinando e ds hervinhas
O nome, que no peito escrito tinhas.

cxxi

Do teu Principe alii te respondiam
As lembran<jas que na alma Ihe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus, fermosos, se apartavam ;
De noite em doces sonhos que mentiam,
De dia em pensamentos que voavam ;
E quanto em fim cuidava e quanto via,
Eram tudo memories de alegria.



Cancioneiro de Coimbra 33



CXXII

De outras bellas senhoras e princesas

Os desejados talamos engeita,

Que tudo em fim, tu, puro amor, desprezas,

Quando hum gesto suave te sujeita.

Vendo estas namoradas estranhezas

O velho pai sesudo, que respeita

O murmurar do povo e a phantasia

Do filho, que casar-se nao queria ;

cxxin

Tirar Ignes ao mundo determina,
For Ihe tirar o filho que tern preso,
Crendo co sangue so da morte indina
Matar do firme amor o fogo acceso.
Que furor consentio, que a espada fina,
Que pode sustentar o grande peso
Do furor mauro, fosse alevantada
Contra huma fraca dama delicada ?



CXXIV

Traziam-na os horrificos algozes

Ante o Rei, jd movido d piedade ;

Mas o povo com falsas e ferozes

Razoes a morte crua o persuade.

Ella com tristes e piedosas vozes,

Sahidas so da magoa e saudade

Do seu Principe e filhos, que deixava,

Que mais que a propria morte a magoava ;



cxxv

Para o ceo cristalino alevantando

Com lagrimas os olhos piedosos;

Os olhos, porque as maos Ihe estava atando

Hum dos duros ministros rigorosos,

E despois nos meninos attentando,

Que tao queridos tinha e tao mimosos,

Cuja orphandade como mai temia,

Para o avo cruel assi dizia :



34 Cancioneiro de Coimbra



cxxvi

Se jd nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento ;
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aerias tem o intento,
Com pequenas crian^as yio a gente
Terem tao piedoso sentimento,
Como co' a mai de Nino } mostraram
E co'os irmaos que Roma edificaram;

cxxvu

O' tu, que tens de humano o gesto e o peito.

( Se de humano e matar huma donzella

Fraca e sem for$a, so por ter suieito

O cora(jao a quem soube vence-la )

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o nao tens a" morte escura della :

Mova-te a piedade, sua e minha,

Pois te nao move a culpa, que nao tinha.



CXXVI1I

E se, vencendo a maura resistencia,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe tambem dar vida com clemencia
A quem para perde-la nao fez erro ;
Mas se t'o assi merece esta innocencia,
P6e-me em perpetuo e misero desterro,
Na Scythia fria, ou 14 na Lybia ardente,
Onde em lagrimas viva eternamente.



cxxix

Poe-me onde se use toda a feridade,
Entre leoes e tigres ; e verei
Se nelles achar posso a piedade,
Que entre peitos humanos nao achei :
Ali co'o amor intrinseco e vontade
Naquelle por quem mouro, criarei
Estas reliquias suas, que aqui viste,
Que refrigerio sejam da mai triste.



Cancioneiro de Coimbra 35



cxxx

Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras, que o magoam ;
Mas o pertinaz povo e seu destine
(Que uesta sorte o quis i Ihe nao perdoam.
Arrancam das espadas de a^o fino
Os que nor bom tal feito all apregoam ;
Contra huma dama, 6 peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavalleiros ?



CXXX I

Qual contra a linda mo^a Polycena,
Consola^ao extrema da mai velha,
Porque a sombra de Achilles a condena,
Co'o ferro o duro Pyrrho se aparelha ;
Mas ella os olhos com que o ar serena
( Bern como paciente e mansa ovelha )
Na misera mai ppstos que endoudece,
Ao duro sacrificio se ofFerece :



cxxxn

Tais contra Ignes os brutos matadores,

No collo de alabastro, que sostinha

As obras com que Amor matpu de amores

Aquelle que despois a fez Rainha,

As espadas banhando e as brancas flores

Que ella dos olhos seus regadas tinha,

Se encarni^avam fe'rvidos e irosos,

No future castigo nao cuidosos.



CXXXIII

Bern poderas, 6 Sol, da vista destes

Teus raios apartar aquelle dia,

Como da seva mesa de Thvestes

Quando os filhos por mao de Atreu comia f

Vos, 6 concavos valles, que podestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que Ihe ouvi>tes,

Por muito grande espa^o repetistes I



36 Cancioneiro de Coimbra



CXXXIV

Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, Candida e bella,
Sendo das maos lascivas maltratada
Da menina, que a trouxe na capella,
O cheiro traz perdido e a cor murchada :
Tal esta morta a pallida donzella,
Seccas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, co'a doce vida.



cxxxv

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram ;
E por memoria eterna, em fonte pura
As lagrimas choradas transformaram :
O nome Ihe poseram, que inda dura,
Dos amores de Ignes, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as floras,
Que lagrimas sao a agoa, e o nome amores.



DIOGO BERNARDEZ

SONETO

Jd do Mondego as ago^s apparecem
A meus olhos : mo meus, antes alheios,
Que doutras differentes vindo cheios
Na sua branda vista inda mais crecem.

Parece que tambem fonpadas decem
Segundo se detem em seus rodeios.
Tri>te ! por quantos modos, quantos meios
As minhas saudades me entristecem.

Vidi de tantos males salteada,
Amor a poe em termos que duvida
De poder ver o fim desta Jornada.

Antes se da de tpdo por perdida,
Vendo que nao vai da alma acompanhada
Que se deixou ficar onde tern vida.



Cancioneiro de Coimbra
IGNACIO DE MORAIS

FONS AMORUM

Episodic do Conimbricae Encomiu n
( Versao livre de Sousa Viterbo)

A fonte, que murmura aqui tao erma,
Vem dum vizinho, tenebroso antro ;
Chama-lhe o vulgp a Fonte dos Amores.
Amou outrora delirantemente
O placido Mondego, e a sua nympha
Foi do coro das nayadas do rio
Inda suspira tristemente e a furto
Seus antigos amores. . . Pobre fonte !
Nao a deixam buscar seu terno amante,
E o Mondego, nos impetos de vel-a,
Inunda os campos que Ihe fleam proximos.
Tem inveja ao Alpheu ; ao menos este
Foi no enca^o da bella fugitive
E pode emfim colher sua Arethusa.
Outra nympha, porem, procura agora
Embalal-o em delicias amorosas
E apagar o calor da chamma antiga.
Abriram-se na margem novos veios
E no mesmo crystal ja fraternizam
Aguas dafonte-nova e do Mondego.

ANTONIO FERREIRA

DA CASTRO

DO ACTO III
A AMA A t CASTRO

Danas esse teu rosto tarn fermoso,
Filha, com tantas lagrimas : nao chores :
Nao offendas teus olhos : ha nao vejam
Nelles sinaes tamanhos de tristeza
Aquelles, cuja gloria he ver-te alegre.
Olha as agoas do Rio como correm
Pera onde estd tarn saudosamente
De Id te ve, Senhora ; ellas Ihe lembram
Este aposcnto seu, ou da su'alma.



38 Cancioneiro de Coimbra



Estes campos fermosos, que parecem
Debaixo deste ceo dourado, e bello,
Quern os verd, que logo nao se alegre ?
Ouve a musica doce, com que sempre
Te vem a receber os passarinhos
For cima destas arvores fermosas.
Cuida, Senhora, de lograres isto
Em algum tempo com dobrado gosto,
Segura da fortuna, e de seus medos,
Senhora do teu bem, e desta terra.

DO ACTO III
CORO DAS MOCAS DE COIMBRA

Apos amor vem morte
Ou da vida, ou da honra,
E d'alma juntamente,
Que em noite escura poem,
Sem ver o claro dia
Da razao, que Ihe diz
Os males, e perigos,
Em que este amor acaba.
O Principe tarn cego !
O Principe tarn duro t
Que cerraste os teus olhos
A'quelles bons conselhos,
Que cerraste as orelhas
A'quelles bons avisos.
Tu dormes, ou passeas,
E pelos campos vem
Do Mondego correndo
A cruel morte em busca
Da tua doce vida,
Do teu amor tam doce.
Cruel morte, que vens
Buscar esta innocente,
Ha piadade, e m^goa
Dos seus fermosos olhos,
Do seu fermoso rosto ;
Nao desates hum no
Tam firme, com que dous
Cora^oes ajuntou
Amor tam estreitamente.



Cancioneiro de Coimbra 89



Crueza faras grande
Partir bus olhos d'outros ;
Hua alma assi d'outr'alma :
E derramar o sangue,
O sangue tam fermoso
Do seu fermoso corpo.
Doan-te aquelles peitos
De marfim, ou de neve.
Doan te aquellas faces
De lyrios, e de rosas,
Que ja perdem sua cor
Pola falta do sangue,
Que no coracpao junto
Lhe tens frio, e coalhado
Com medo do teu nome.
Aquella alva garganta
De cristal, ou de prata,
Que sostem a cabeca
Tam alva, e tam dourada,
Porque cortar a queres
Com golpe tam cruel ?
E derramar nos ares
Aquelle sprito digno
Do corpo em que vivia ?
Ha piedade, e mdgoa
De tanta fermosura,
Daquelle triste Iffante,
E destes seus penhores.
Detem-te, em quanto chega,
Detem-te em quanto tarda.
Corre, 6 Iffante, corre :
Socorre ao teu amor.
Hay tardas ! saberas
Como o Amor sempre acaba.

ACTO V
IFFANTE

Outro ceo, outro sol me parece este
Differente daquelle, que la deixo
Donde parti, mais claro, e mais fermoso.
Onde nao resplandecem os dous claros



4o Cancioneiro de Coimbra



Olhos da minha luz, tudo he escuro.
Aquelle he so meu sol, a minha estrella,
Mais clara, mais fermosa, tnais luzente
Que Venus, quando mais clara se mostra.
Daquelles olhos s'alumia a terra,
Em que sombra nao ha, nem nuvem escura.
Tudo ali he tam claro, que te a noite
Me parece mais dia, que este dia.
A terra ali s'alegra, e reverdece
D'outras flpres mais frescas, e melhores.
O ceo se ri, e se doura differente
Do que neste Orisonte se me mostra.
O soberbo Mondego com tal vista
Parece que ao gra mar vay fazer guerra.
D'outros ares respira ali a gente,
Que fazem immortaes os que la vivem.
O' Castro, Castro, meu amor constante !
Quern me de ti tirar, tire-me a vida.
Minh'alma Id ma tens, tenho cd a tua.
Morrendo hua destas vidas, ambas morrem.
E avemos de morrer? pode vir tempo
Que ambos nos nao vejamos? nem eu possa r
Indo buscar-te, 6 Castro, achar-te la ?
Nem achar os teus olhos tam fermosos,
De que os meus tomam luz, e tomam vida?
Nao posso cuidar nisto, sem os olhos
Mostrarem a saudade, que me fazem
Tam tristes pensamentos. Viviremos
Muitos annos, e muitos : Viviremos
Sempre ambos nest'amor tam doce, e puro.
Raynha te verey deste meu reyno,
D'outra nova coroa coroada
Differente de quantas coroa ram
Ou de home's, ou molheres as cabeqas.
Entao serao meus olhos satisfeitos :
Entao se fartard da gloria sua
Est'alma, que anda morta de desejos.

MESSAGEIRO

O' triste nova, triste messageiro
Tens ante ti, senhor.

1FFANTE

Que novas trazes ?



Cancioneiro de Coimbra 41



MESSAGEIRO

Novas crueis ; cruel sou contra ti,
Pois m'atrevi traze-las. Mas primeiro
Sossega teu sprite : e nelle tinge
A mor desaventura, que te agora
Podia acontecer : que gra remedio
He ter o sprito armado d ma fortuna.

IFFANTE

Tens-me suspense. Conta : que acrecentas
O mal com a tardanca.

MESSAGEIRO

He morta Dona Ines, que tanto amavas.

IFFANTE

O' Decs : 6 ceos I que contas ? que me dizes ?

MESSAGEIRO

De morte tarn cruel, que he nova magoa
Contar-ta : nao me atrevo

IFFANTE

He morta ?

MESSAGEIRO

Si,

IFFANTE

Quern ma matou ?

MESSAGEIRO

Teu pay, co gente armada
Foy hoje salted-la. A innocente,
Que tam segura estava, nao fugiu.
Nao Ihe valeo o amor com que te amava.
Nao teus filhos, com quern se defendia.
Nao aquella innocencia, e piedade,
Com que pedio perdao aos pes lan<;ada
D'elRey teu pay, que teve tanta forca
Que Iho deu ja" chorando. Mas aquelles
Crueis ministros seus, e conselheiros
Contr'aquelle perdao tam merecido
Arrancando as espadas se vao a ella
Traspassando-lh'os peitos cruelmente ;



42 Cancioneiro de Coimbra



Abra^ada cos filhos a matdram,

Que inda ficdram tintos do seu sangue.

1FFANTE

Que direy ? cjue farey ? que clamarey ?
O' fortuna ! o crueza ! 6 mal tamanho !
O' minha Dona Ines, 6 alma minha,
Morta m'es tu ? morte ouve tarn ousada
Que contra ti podesse ? ouco-o, e vivo ?
Eu vivo, e tu es morta ? 6 morte crua !
Morte cega, mataste minha vida,
E nao me vejo morto ? abra-se a terra.
Sorva-me num momente : rompa-s'alma,
Aparte-se de hum corpo tarn pesado,
Que ma detem por forca.
Ah minha Dona Ines, ha, ha minh'alma !
Amor meu, meu desejo, meu cuidado,
Minh'esperana so, minh'alegria,
Mataram-te f mataram-te ? tua alma
Innocente, fermosa, humilde, e sancta
Deixou jd seu lugar ? ha de teu sangue
S'encheram as espadas ? de teu sangue ?
Que espadas tarn crueis, que crueis maos !
Ah como se moveram contra ti ?
Como tiveram forcas, como fios
Aquelles duros fer'ros contra ti ?
Como tal consentiste, Rey cruel ?
Imigo meu, nao pay, imigo meu !
Porque assi me mataste ? 6 Lioes bravos !
O' Tygres ! 6 serpentes ! que tal sede
Tinheis deste meu sangue ! porque causa
Vos nap vinheis em mim Tartar vossa ira ?
Matareis-me, e vivera. Homes crueis,
Porque nao me matastes ? meus imigos,
Se mal vos merecia, em mim vin^areis
Esse mal todo. Aquella ovelha mansa
Innocente, fermosa, simplex, casta,
Que mal vos merecia f mas quisestes
Gomo imigos crueis buscar-me a morte
Nao da vida, mas d'alma. O' ceos, que vistes
Tamanha crueldade, como logo
Nao cahistes ? O' montes de Coimbra,
Como nao sovertestes taes ministros ?



Cancioneiro de Coimbra 48



Como nao treme a terra, e s'abre toda ?
Como sustenta em si tarn gra crueza ?

MESSAGEIRO

Senhor, pera chorar fica assaz tempo :
Mas lagnmas que fazem contr'a morte ?
Vay ver aquelle corpo, vay fazer-lhe
As honras que Ihe deves.

IFFANTE

Tristes honras 1

Outras honras, Senhora, te guardava :
Outras se te deviam O' triste, triste !
Eriganado, nascido em cruel signo,
Quern m'enganou ? ah cego que nao cria
Aquellas ameac,as ! mas quern crera
Que tal podia ser ?
Como poderei ver aquelles olhos
Cerrados para sempre ? como aquelles
Cabellos ja nao de ouro, mas de sangue ?
Aquellas maos tarn frias, e tarn negras,
Que antes via tam alvas, e fermosas ?
Aquelles brancos peitos traspassados
De golpes tam crueis ? aquelle corpo,
Que tantas vezes tive nos meus bracos
Vivo, e f'ermoso, como morto agora,
E frio o posso ver ? hay como aquelles
Penhores seus tam sos t 6 pay cruel !
Tu nao me vias nelles > meu amor,
Jd me nao houves ? ja nao te ey de ver ?
Ja te nao posso achar em toda a terra ?
Chorem meu mal comigo quantos m'ouvem.
Chorem as pedras duras, pois nos home's
S'achou tanta crueza. E tu Coimbra
Cubre-te de tristeza para sempre.
Nao se ria em ti nunca, nem s'ou<;a
Senao prantos, e lagrimas : em sangue
Se converta aquella agoa do Mondego.
As arvores se sequem, e as Mores.
Ajudem-me pedir aos ceos justica
Deste meu mal tamanho.
Eu te matey, Senhora, eu te matey.
Com morte te paguei o teu amor.



44 Cancioneiro de Coimbra



Mas eu me matarey mais cruelmente
Do que te a ti matdram, se nao vingo
Com novas crueldades tua morte
Par'isto me dd Deos somente vida.
Abra eu com minhas maos aquelles peitos,
Arranque delles bus coracoes feros,
Que tal crueza ousaram : entam acabe.
Eu te perseguirey, Rey meu imigo
Lavrard muito cedo bravo fogo
Nos teus, na tua terra, destruidos
Verao os teus amigos, outros mortos,
[>e cujo sangue s'encherao os campos,
De cujo sangue correrao os rios,
Em vinganca daquelle: ou tu me mata,
Ou fuge da minh'ira, que jd agora
Te nao conhecera por pay. Imigo
Me chamo teu, imigo teu me chama.
Nao m'es pay, nao sou filho, imigo sou,
Tu, Senhora, estas la nos ceos, eu fico
Em quanto te vingar : logo la voo.
Tu seras cd Raynha, como foras
Teus filhos, so por teus serao Iffantes.
Teu innocente corpo serd posto
Em Estado Real : o teu amor
M'acompanhard sempre, te que deixe
O meu corpo co teu; e la va est'alma
Descansar com a tua pera sempre.



V. co MOUSINHO DE QUEVEDO

DO DISCURSO SOBRE A VIDA, & MORTE,

DE SANTA ISABEL, RAINHA

DE PORTUGAL

Em Toimbra, Cidade de alto assento,
Que de Athenas roubou a gloria, e fama,
Nhu lugar a que deu o fundamento
E que de clara se intitula, e clama,
De mil gracas do Ceo nobre aposento
Onde tambcm o Mundo mil derrama,
laz sepultado o corpo bello, e puro,
Traz proceloso mar porto seguro.



Cancioneiro de Coimbra 46



A fermosa alma ainda que Ihe agrade
A casa onde viveo tao pura, e bella
Voando vae ao Ceo com saudade,
Se saudade entao pode ter della.
Com musica de estranha suavidade
Pisando hu Ceo, e outro hQa outra estrella,
Esta gosando aquella summa gloria
Onde oje de seu Reyno tern memoria.

Sorte felis, de todos dezejada

E que a muytos por alto passa, e erra,

Raynha ca no mundo foy chamada

Nem o Ceo este nome me desterra.

Qual Iris de mil cores variada,

Qual tras hu pe no mar, outro na terra

Ou qual do Simulacro a imagem bella

Que te nhua mao rosa, e noutra estrella.

Pintavao esse moco fero, e brando,
Que com ser cegd nunca tiro perde,
Como do mar e terra triumphando
Na mao hu pexe, e noutra um ramo verde.
Quem houve de mor ceptro, e largo mando
Que em duas vidas, duas glorias herde ?
Com Dinis Portugal, com Deos os Ceos
Herda Isabel, cos Ceos o mesmo Deos.

O Cidade fermosa sobre quantas
O Mundo exalta e Phaetonte doura,
Sobre todas soberba te levantas
Co alto penhor que dentro se athesoura,
Com tua gloria o largo mundo espantas
Nem ja mais temas que esta gloria moura.
Que ficara teu nome, e fama eterna,
A mal grado do tempo que a governa.

Nao recces, Coimbra, ira de sima
Nem facas conta de ira vaa da terra,
Que pois viva Isabel tanta se estima
Que seu divino corpo em ti se encerra,
Nao sofrera q a terra, e Ceo te oppriraa



46 Cancioneiro de Coimbra

Por mais que ambos te facao dura guerra,
Porque a da terra c'hu aceno acode,
E na guerra do Ceo c'hu rogo pode.

Sesostris Rey do Egypto por lembran$a
De hua filha, que a morte Ihe ronbara,
E por mostras do amor que inda o descamja
Quando depois de morta Iho declara,
Hu sepulcro levanta, e seguranca
Por titulo Ihe poem, que tudo ampara,
Crimes que ali se acolhem no pengo
Isentos sao de pena, e de castigo.

Quanta mor seguranca nos promete
Este Sepulcro de misterios cheyo,
Onde Deos, este bello corpo mete
Para ser de bens nossos certo meyo.
Todo o mal seu furor aqui somete,
Nao foy desconsolado o que aqui veyo.
Que dentro deste marmor ha virtude
Que as almas cura, e aos corpos da saude.



FRANCISCO RODRIGUEZ LOBO

DA PRIMAVERA
ft CAMPOS DO MONDEGOt)

O que o pastor Lereno cantou, ao chegar aos compos
do Mondego

Relva vestida de flores,
Salgueiros verdes copados,
Que sois pastura dos gados
E descanco dos pastores,
Agoas que tomais as cores
Da sombra desta verdura,
Se essa vossa fermosura
De contino ver quizerdes,
Sustetai seus ramos verdes
Sem olhar minha figura.



Cancioneiro de Coimbra 47



Doces passarinhos ledos
Que fazeis vossos recramos
Saltando dos verdes ramos
For cima destes penedos,
Se de amor tratais segredos
De mim nao nos conneis,
Que he certo no q canteis
( Porq e tudo amor offeda)
Ainda que nao vos enteda
Que publique o que dizeis.

Gados, q assi livremente
Sem inveja, ou difference
Gozais com tanta Iicen9a
O prado verde, e contente,
For nao verdes differente
O gosto com que cornels,
Nestas floras que colheis
Se a vida quereis achar,
Guardaivos das q eu tocar
Porque logo morrereis.

Livres peixes, que na vea
Os rayos do Sol tomais,
E nestes puros cristais
Estais vendo a luz alhea,
Quando sobre a loura area
Buscais doce mantimento,
Olhai, nao bebais sem tento
Esta agoa que me consume,
Que vos fara por costume
Perder o contentamento.

E vos Nimphas q pizais
Estas ervas e estas tiores,
Se sabeis sentir de amores
Como nao me acompanhais?
Porque hum alivio negais,
Que e vos nao pode ser erro
A que mata a fogo, e ferro,
A forca da mesma dor ?
Mas ah sentistes amor
E nao sentistes desterro.



Cancioneiro de Coimbra



Qualquer amate agravado
For engano, ou por mudanca,
Inda Ihe fica esperan9a
Daquelle primeiro estado.
Ay de hum triste desterrado
A qu5 mais nao se consente
Que conhecer claramente
Pelo que em seu mal consiste,
Que ha de viver para triste
Para nao morrer contente.

Perdi a gloria q tinha
Be guardada, e mal segura,
Perdi por minha ventura,
Que nao foi por culpa minha :
Era forcja, que convinha
Para seu fatal intento,
Que eu pade$a meu tormento,
Adorando a sem razao,
Dando a hum falso pregao
Verdadeiro sofrimento.

Voume do meu natural
Por mal estranho a q vim,
Bern descontente de mim
Nao da causa de meu mal.
E se ante amor tambe val
O padecer por vontade,
Agoas que com liberdade
Buscais o fim desejado,
Testimunhai meu cuidado,
Sois claras, falai verdade.



Cantigas de quatro serranas do Mondego que vinham

para a fonte com as beatilhas dobradas sobre os

cabellos, & nellas os cantarinhos pedrados .

Mancebp do prado,
Nao tragais espada,
Porque onde ha tais olhos
Para q sao armas ?



Cancioneiro de Coimbra 49



Mancebinho louro,
Anday descuberto,
Tomareis mil almas
No vosso cabello.

Tornayme os meus olhos,
Mancebo do verde,
Que anda traz de vds
E nao sabeis delles.

Tornayme meus olhos,
Mancebo do roxo,
Que vao da minh'alma
Para o vosso rosto.

Nao quero ser dama
Do dos olhos brancos,
Que tern mil amores
E nenhum cuidado.

Nao quero ser dama
Do dos olhos negros,
Que tem mil amores
E nenhum segredo.

Vinde-vos, meus olhos,
Vinde-vos da serra,
Nao vos queyme o Sol,
Que vos tem inveja.

Pois fiquey na serra,
Vinde-vos do campo,
Que quern ama muyto
Nao espera tanto.

F6ra-se o meu damo
A lavrar no Monte,
Quero me ir com elle,
Nao venha de noyte.

F6ra-se o meu damo
A gradar no vale,
Quero-me ir tras elle,
Que outre nao Ihe agrade.



5o Cancioneiro de Coimbra



Lume dos tneus olhos,
Se fordes a villa
Levay-me nos vossos,
Vireis mais asinha.

Pois ides a villa
Ninguem vos contente,
Que os rostos toucados
Muytas vezes mentem.

O que o pastor Leretio cantou em hum fermoso lit
mais celebrado emfrescura, & gramas aa nature^a,
que to dos os que eslao ao longo do Mondego .

Agoas, que penduradas desta altura
Cahis sobre os penedos descuydadas,
Aonde em branca escuma levantadas
OfFendidas mostrais mais fermosura ;

Se achais essa dureza tarn segura,
Para que porfiais, agoas cansadas ?
Ha tantos annos ja desenganadas,
E esta rocha mais aspera, e mais dura.

Voltay atraz por entre os arvoredos,
Aonde caminhareis com liberdade
Ate chegar ao fim tarn desejado.

Mas ay, que sao de amor estes segredos,
Que vos nao valera propria vontade,


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Online LibraryAfonso Lopes VieiraCancioneiro de Coimbra → online text (page 2 of 7)