Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

. (page 3 of 7)
Online LibraryAfonso Lopes VieiraCancioneiro de Coimbra → online text (page 3 of 7)
Font size
QR-code for this ebook


Como a mim nao valeo no meu cuidado.



ADEUS DO PASTOR LERENO

A Deos agoas cristalinas,
A Deos fermosos outeyros,
Faias, choupos e salgueiros,
Lirios, flores, e boninas.

A Deos fermosa lembran^a
Com que em meus males vivia,
A Deos vales de alegria,
A Deos montes de esperanca.



Cancioneiro de Coimbra 5i



A Decs fermoso penedo
De que com tantas verdades
Fiey minhas saudades
Que me pagastes tarn cedo.

... A Deos prado, a Deos pastores,

Vassallos deste amor c< go,
A Deos agoas do Mondego,
A Deos fonte dos amorcs.

A Deos Altea, que ausencia
Desengana teu cuidado,
Nao queyras de hum desterrado
Fazer nova experiencia.

Eu vou onde perca a vida,
Logra a tua a teu sabor,
E nunca sejas de amor
Com falsidade offendida.

Pastores, que jet m-; ouvistes,
Devos a sorte alegria,
Pois que a minha companhia
Nao he mais que para tristes.

Agoas em que jd me olhey,
Que co'os olhos mturvava,
Quando cantando chorava
Hum mal que tanto estimey :

Sempre corrais com dcscanco
A' sombra de arvoivs bcllas,
E vejais claras estrellas
De noyte em vosso rcmanco.

Ficai, a Deos arvort- dos,
Fontes e arvores sombrias,
Que em tempos de tantos dias
Nao vistes meus olhos ledos.

Lagrymas, que aqui ficais
Derramadas com razao,
A Deos, que outras nascerao
No lugar donde brotais.



52 Cancioneiro de Coimbra

BRAS GARCIA DE MASGARENHAS

DO VIRIATO TRAGICO

( Vtndo o poeta a Coimbra e assistindo a umas festas no

Terreiro de Sansao, foi preso na cadeia

da Port a gem, donde se evadiu )

Amor, que em noviciado entretivera
Ateli minha louca ociosidade,
Tratou de sino, como se o tivera,
De me opprimir de todo a liberdade.
As musas, que ate entao nap conhecera,
Achando em seu calor facilidade,
Cantando espalham queixas e louvores,
Que amor sem versos e jardim sum flores.

Este tyrano intrinseco me deve
Quantas desditas tenho padecidas,
Que em tantas me enredou em tempo breve,
Que o nao ha, para serem referidas.
Ciumes, vento, chuva, jcalma, neve,
Desafios, paixoes, brigas, feridas,
Razoes e resistencias, que nao pinto,
Tudo por elle passo, e nada sinto.

La donde com mais placida corrente
O sereno Muliades caminha,
Espelho dando a fabrica eminente
Do arnano Ataces e christa Rainha,
Fui a ver, mais incauto que prudente,
Huma festa que foi tragedia minha,
Que o sopro de malsim prezo exprimento,
Que leva um sopro o mor contentamento.

Quem per muy grave caso nao foi prezo,
Nao diga que passou tormento grave,
Que, com a liberdade, he todo o peso
Calamitoso, de levar suave ;
Logo um prezo he tratado com desprezo,
Inimigo nao ha que o nao aggrave ;
Deixado he de parentes, e de amigos,
Muytos nos bens, e poucos nos perigos.



Cancioneiro de Coimbra 53



Bern tenho d minha custa exprimentado
Verdade, que he de tantos tarn sahida,
Pois quanto era a prisao mais dilatada,
Achava mais difficil a sahida ;
E como he na occasiao mais apertada
A desesperacjao muy atrevida,
Com celebrado ardil e alheo erro,
Rota a masmorra, abre caminho o ferro.

Cerra-lo a vozes Nemesis procura,

Rustica plebe a seu favor se emprega;

Mas quern deliberado se aventura,

Nao teme a quern sobresaltado chega.

O perigo em que a morte se afigura

A quern a sollicita espanta e cega,

E por horror confuso e sol ardente,

Bern como a lebre os caes, me s<_gue a gente.

A mais distancia do que o caso pede,
Uma filha do ventp um prado toza,
Que, se e bruta, piedosa me concede
A madeixa da calva melindrosa
Esta, d'aquella inextricavel rede
Me livra tao leal quanto animosa,
Pois sem fazer nos maos encontros falta,
Quanto encontra, com os beicos e os pes salta



MANUEL DE AZEVEDO

DAS SAUDADES DE DONA 1GNEZ

Qual a branca a<;ucena que cortada
Sentiu do tempo ou ferro a crueldade,
Em seu mesmo candor amortalhada
Defunta flor em flor, na flor da idade;
A quern ficou somente de engracada
Os antigos rascunhos da beldade,
Tal riea a bella Ignez amortecida,
Sem gala, luz, sem cor, graca, nem vida.



54 Cancioneiro de Coimbra

MANUEL TAVARES CAVALLEIRO

A FONTE DAS LAGRIMAS

Amor, nunca de pranto satisfeito,
Quiz que a nao ser com terra rosciada,
Em liquidos fragmentos derramada
Pelos olhos, a dor opprima o peito.

Mai pode allivio tal ( bem que imperfeito )
Logro da vida ser tao magoada,
Que o tormento, a que corre vinculada,
Nao busca os olhos em liquor desfeito.

He pois de um puro amor gostosa a fragoa,
Se he muito mais, com dura tyrannia,
Grande a dor, a que os olhos negam agoa.

Fonte de amor, que choras de alegria,
Se exprimentdras bem saudosa magoa,
Secca ficdras como a pedra fria.

FR. JERONYMO VAHIA

A FONTE DAS LAGRIMAS

Ves essa pura fonte tao acceita,
Digna de vista ser, sem ser vistosa ?
Que quanto mais murmura, mais deleita,
De muda penha filha sonorosa ?

Ves que o gosto enfeitica, o prado enfeita,
E quanto branda mais, mais p >derosa ?
Contraries vence, opposi^oes sujeita,
Pois se ve fria, pois se ve chorosa.

Ves tanta prata, ves aljofar tanto ?
Sabe, Isabel gentil, e doce Isbella,
Do ouvido suspensao, da vista encanto,

Que se ella vive em mim, que eu vivo nella,
Ella he lagrimas toda, eu todo pranto,
Eu de amor fonte, fonte de amor ella.



Cancioneiro de Coimbra 55

ANONIMO

SONETO

Nao sao de Ignez os laivos sanguinosos
Que estas rigidas pedras marchetaram,
Quando duros ministros Ihe cravaram
No branco collo os acos horrorosos.

Sao lagrimas vertidas dos chorosos
Olhos das Nymphas, quando lamentaram
De Ignez a morte, que em signal ficaram
Impressas nos penhascos escabrosos.

For lembranca inda agora existe, e dura,
Este triste padrao, que a eternidade
Contra o giro dos annos assegura.

Aqui vemos de Amor a crueldade,
Que sempre faz indigno da ventura
Aquelle que he mais digno de piedade.

JOAO XAVIER DE MATTOS

SONETO

Meu amado Mondego, meu amado
Mestre gentil, que sabio me educaste ;
Do tempo que, benigno, me hospedaste,
For onde quer que for, serei lembrado.

C& toma conta da Pastora, e gado,
Que jd com teus salgueiros abrigaste;
Assim nunca a Esta<;ao do Estio gaste
Teu crystalline curso socegado.

Da patria uma justissima vingan(ja
De ti me leva a outros Orizontes,
Aonde pague a culpa como heran^a.

Por ti, por ella sao meus olhos fontes;
E se vivo, he somente na esperan^a
De ainda tornar a saiidar teus montes.



56 Cancioneiro de Coimbra

FILINTO ELYSIO

ODE

ao Senhor Doutor Manoel Thoma"^ de A^evedo e Sov
No tempo da rejdrma da Universidade de Coimbra.

Erguida a nova Athenas Lusitana
Por um novo Solon, nova Minerva
Piza as vi^osas margens do Mondego,
Com delicadas plantas.

Os templos, que deixou enfastiada
A Verdade, atequi mal recebida
A grandes passos vem buscar saudosa,
Desandando o caminho.

Os grilhoes, q*ue forjou a ignorancia,
Forao por fortes maos de.spedac.ados ;
Hoje pendem nas nitidas paredes
Da Celeste Sapiencia ;

E o Monstro vil, gastando-se de raiva,
Tern sobre as costas presos, com cem lacos r
Os pulsos roxos, baixas as orelhas,
Aos pes da clara Deosa

Tinha o peito fervendo em baixa invdja
Quern urdio corromper a Mocidade
Com doutrinas fallazes, com chymeras
Sem succo, sem clareza.

Nao vio aberto o bdrathro em cem boccas f
E as furias vingadoras, c'os flagellos
De verdes serpes, de trisulcas linguas
Nas duras maos tra^ados ?

Nao vio, que azues contagios escumava
Da peconhenta bocca ; que esparzidos
Pelos cerebros nbvos innocentes
Lavravao com soltura ?



Cancioneiro de Coimbra



Tu, Deos previsto, em majestoso alcazar
De delicada fabrica ingenhosa
A Rainha Razao em vap collocas,
Mais alta que as paixoes.

Se a Fraude, se o Rancor, se a van Cubi^a
Escalao muros, peitao sentinellas,
Enleiao, avassallao, poem a ferros
A Captiva Rainha.

O amor da Pdtria, a san Philosophia
So tem armas, so tern fonjoso antidpto,
Com que domem tdes monstros ardilosos,
Atalhem taes venenos.

A sabia Filha do scm-par Tonante,
A graos botes de lanca inevitavel,
P6z em fuga as maleficas Esphinges,
As Tramas, os Gonluios.

Tu, Souza amigo, os encontraste 4 vinda,
Pela estrada arrastando os lassos membros,
Pavorosos, feridos, decepados,
Fugindo da Lizura.

Viste chorar de raiva, e dor acerba
A ignorante Soberba, desbulhada
Dos thronps, dos altares, que occupava
Cortejada de todos

E como rias tu, quando avistaste
As dez Cathegorias de Aristoteles
Aos murros, umas pondo a culpa &s outras
Do subito desastre ?

Sem fasto 5a a ranqiosa Theologia
A pe, co'a toga ^uja, mal tra<jada ;
Garregada de tomos grandes, grosses,
Que ma"is nao serao lidos.

Que nuvem de papeis desneda^ados
Vai sem gloria voando pelos ares ?
Vao grossas conclusoes de Latim crespo,
Bolorentas postillas.



58 Cancioneiro de Coimbra



Que tropel de Thomistas, e Escotistas
ArrepeUlao as barbas, e os cabellos ;
Porque estes Estatutos os privdrao
De gritar sobre nada ?

6lha o Bedel, e o rustico Meirinho
A dar co'a vara nos ronceiros Sanches,
Durandos, Busembaums, Lullos, Cayados,
Aranhas, e Barretos.

Diverte-te, meu Souza pachprrento,
Em ver esse entremez, a cuja scena
Os Gothicos de raiva se amargurao,
Os modernos se riem ;

Em quanto eu cd tambem rio o que posso,
E como o bom Salmao, que me mandaste,
Em lugar das Lampreas promettidas
Ha mdis de tres Quaresmas.



BOCAGE

A MORTE DE IGNEZ DE CASTRO
CANTATA

Longe do caro esposo Ignez formosa,

Na margem do Mondego,
As amorosas faces aljofrava

De mavioso pranto.
Os melindrosos, candidos penhores

No thalamo furtivo,
Os filhinhos gentis, imagem d'ella,
No rega^o da mai serenos gozao

O somno da innocencia.
Coro subtil de aligeros favonios,

Que os ares embrandece,

Ora enlevado afaga
Com as plumas azues o par mimoso,

Ora, solto, inquieto,
Em leda travessura, em doce brinco

Pela amante saudosa,
Pelos tenros meninos se reparte,
E com tenue murmurio vai prender-se



Cancioneiro de Coimbra



Das aureas tranc_as nos anneis brilhantes.
Primavera louca, quadra macia

Da ternura e das flores,
Que d bella natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de amor ao mundo apuras

O prazer da existencia,

Tu de Ignez lacrimosa

As magoas nao distrahes com teus encantosl
Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturaes os sons varia ;
O limpido Mondego em vao serpea
Co'um benigno susurro, entre boninas
De lustroso matiz, almo perfume ;
Em vao se doira o sol de luz mais viva
Os cos de mais pureza em vao se adornao

For divertir-te, 6 Castro ;
Objectos de alegria amor enjoao

Se amor 6 desgra^ado.
A meiga voz dos zephyros, do rio,

Nao te convida o somno:

So de jd fatigada

Na luta de amargosos pensamentos,
Cerras, misera, os olhos ;
Mas nao ha para ti, para os amantes,

Somno placido e mudo ;
Nao dorme a fantasia, amor nao dorme ; ,
Ou gratas illusoes, ou negros sonhos,
Assomando na idea, espertao, rompem

O silencio da morte.

Ah 1 que fausta visao de Ignez se apossa f
Que scena, que espectaculo assombroso
A paixao Ihe afigura aos olhos d'alma !
Em marmoreo salao de alias columnas
A solio magestoso e rutilante
Junto ao regio amador se ere subida ;
Gracu de neve a purpura Ihe envolve,
Pende augusto docel do tecto de ouro ;
Rico diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as trancas, mais formosas que elle;
Nos luzentes degrdos-do throno txcelso
Pomposos cortezaos o orgulho acurvao;
A lisonja sagaz Ihe adoca os labios,
O monstro da politica se aterra,



6o Cancioneiro de Coimbra



E se Ignez perseguia, Ignez adora.

Ella escuta os extremes,
Os vivas populates, ve o amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dicta ;
O prazer a transports, amor a encanta ;
Premios, dadivas mil ao justo, ao sabio

Magnanimo confere,
Rainha esquece o que soffreu vassalla ;
De sublimes accoes orna a grandeza,
Felicita os mortaes, do sceptro e digna,
Impera em cora^oes. . . Mas ceos ! Que estrondo
O sonho encantador Ihe desvanece !

Ignez sobresaltada

Desperta, e de repente aos olhos turvos
Da yistosa illusao Ihe foge o quadro,
AJinistros do furor, tres vis algozes,
De buidos punhaes a dextra armada,
Contra a bella infeliz bramindo avan$ao.
Ella grita, ella treme, ella descora,
Os fructos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os ceos, o amaqte :
tylas de marmore aos ais, de bronze ao pranto,
A suave attrac^ao da formosura,

Vos, brutos assassinos,
No peito Ihe enterrais os impios ferros.

Cahe nas sombras da morte
A victima de amor, lavada em sangue,
As rosas, os jasmins da face amena

Para sempre desbotao,
Nos olhos se me some o doce lume,

E no fatal momento
Balbucia, arquejando : Esposo, esposo !

Qs tristes inocentes

A triste mae se abracao,
E soltao de agonia inutil choro.

Ao suspiro exhalado,
Final suspiro da formosa extincta,

Os amores acodem

Mostra a prole de Ignez, e a tua, 6 Venus,
Igual consternacao, e igual belleza :
Uns dos outros os candidos meninos

So nas azas differem,
( Que fazem pelo campo em mil pedacos



Cancioneiro de Coimbra 61



Carcazes de marfim, virotes de ouro )
Subito yoao dous do coro alado :
Este, raivoso, a demandar vingan9a
No tribunal de Jove;
Aquelle a conduzir o infausto annuncio

Ao descuidado amante.
Nas cem tubas da fama o grao desastre

Ira" pelo universo :

Hao de chorar-te, Ignez, na Hircania os tigres ;
No tornado sertao da Lybia fe>a
As serpes, os leqes hao-de chorar-te.
Do Mondego, que attonito recua,
Do sentido Mondego as alvas filhas

Em tropel doloroso
Das urnas de crystal eis vem surgindo,
Eis, attentas no horror do caso infando,
Terriveis maldi<joes dos Idbios vibrao
Aos monstros infernaes, que vao fugindo.
Ja c'roao de cypreste a malfadada,
E, arrepelando as nitidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lugubres endeixas.

Tu, echo, as decoraste,
E, cortadas dos ais, assim resoao
Nos concavos penedos, que magoao :

Toldao-se os ares,
Murchao-se as flores :
Morrei, amores,
Que Ignez morreu.

Misero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Jd nao e teu.

Sua alma pura
Nos ceos sd encerra :
Triste da terra
Porque a perdeu !

Contra a cruenta
Raiva ferina,
Face divina
Nao Ihe valeu.



6a Cancioneiro de Coimbra



Tern roto o seio,
Thesouro occulto ;
Barbaro insulto
Se Ihe atreveu.

De dor e espanto
No carro de ouro
O Numen louro
Desfalleceu.

Aves sinistras
Aqui piarao,
Lobos uivarao,
O ch?.o tremeu.

Toldao-se os ares,
Murchao-se as flores
Morrei, amores,
Que Ignez morreu.



NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA

DO MEMORIAL A SUA ALTEZA

Emquanto a minha alma empre'go

Nestas cansadas doutrinas,

A doirada idade chego

De ir ver as vastas campinas

Que banha o claro Mondego.

Jd em rapidas carreiras
Galcava a real estrada,
Sem chapeo, sem estribeiras,
Jd a catana emprestada
Cortava o vento e as piteiras.

Curta, embrulhada quantia,
Que ao despedir me foi dada,
Espirou no mesmo dia ;
E fui fazendo a Jornada
Quazi com Garta de Guia.



Cancioneiro de Coimbra 63



Mas id vejo a branca fronte
Da aita Coimbra, fundada
Nos hombros de erguido monte ;
Ja sobre a area doirada
Vejo ao longe a antiga Ponte.

Povo revoltozo e ingrato

Dentro em seus muros se encerra,

Em vao de adocallo trato ;

He hum titulo de guerra

A chegada de hum Novato.

Pao amassado com fel,

E enyolto em pranto, comia;

Levei vida tao cruel,

Que peior a nao teria

Se fosse estudar a Argel.

Soffri contfnua tortura,
Soffri injurias, e assintes,
Lancei tudo em escritura ;
E nos Novatos seguintes
Fiquei pago, e com uzura.

Da bolsa os bofes Ihe arranco
No fresco pateo de Cellas,
Pedindo com genio franco
Doces, gratuitas tigellas
Do famozo manjar branco...



L. P. DE O. PINTO DA FRANgA

SONETO

improvifado junto ao tumulo del ret D. Afonso Henriques,

pelo brigadeiro das tropas de Coimbra, no dia

em que Junot dissolveu o corpo do Exercito

Portugues.

A teus pes, fundador da Monarchia,
Vai ser a lusa gente desarmada !
Hoje rende a traicao a forte espada
Que jamais se rendeu a valentia.



64 Cancioneiro de Coimbra



Oh ! Rei ! Se minha dor, minha agonia,
Penetrar pode sepulcral morada,
Arromba a campa, e com a mao mirrada
Surge a vingar a affronta d'este dia.

Eu, fiel qual te fpi Moniz, teu pagem,
Fiel sempre serei: grata esperan<;a
Me sopra o fogo d'immortal coragem.

E o pranto, que a teus pes minha dor lanca,
Recebe-o, grande Rei, por vassalagem,
Acceita-o em protesto de vingan^a.



ANTONIO RIBEIRO DOS SANTOS

A MORTE DE D. IGNEZ DE CASTRO

Aqui da linda Ignez a formosura
Acabou : crueis maos morte Ihe derao :
Inda sinais do sangue, que verterao,
Estao gravados nessa penha dura.

Vendo as Nynfas tamanha desventura
Sobre o pallido corpo aqui gemerao,
De cujas tristes lagrimas nascerao
As surdas aguas dessa fonte pura.

Pastoras do Mondego, que a corrente
Inda agora bebeis desta saudosa
Fonte, que esta correndo mansamente,

Fugi, fugi do Amor, que a rigorosa
Morte Ihe trouxe aqui : era inocente ;
Se teve culpa foi em ser Formosa.

ALMEIDA-GARRETT

MADRUGADA

NO JARDIM BOTANICO DE COIMiiRA.

N'este sagrado a Flora, almo recinto,

Throno e delicias d'ella,
Aqui onde o perfume saudavel

Respiro de mil flores,



Cancioneiro de Coimbra 65



Como sinto imbeber-se-me a existencia

Em cada trago d'estes
Que os sequiosos pulmoes, te"qui so fartos

De ar pestilente e mau,
D'este suave e puro avidos sorvem,

E com elle o remedio
Ao trabalhado, infraquecido peito,

Ao mui pausado sangue !
Quanto e doce a fagueira, amena sombra

Dos variados arbustos,
Co'a fresquidao das plantas rociadas

Das lagrimas da aurora,
Nos prazeres cevar da Soledade

O descancado espirito !
Como entao pela mente se revolvem

J;i passadas ideas,
E veem umas tr&s outras, acudindo

A lembrada memoria !
Como depois no espa<jo desmedido

Se espraiam do future !
A cada objecto. . . Aqui esta palmeira :

Da eternidade p symbolo
Lhe chamou a sabida antiguidade.

Vede-a ; a cabeca airosa
Sobr'ergue altiva ao circumstante povo

Das variegadas plantas.
Qual jazem nas soidoes do Egypto ou Grecia

Desparzidas, confusas
Aqui, ah ruinas venerandas,

3& sem nome esquecidas ;
Passa o viajante e indiflferente as olha :

Mas se entre ellas al^ar-se
Corynthio marmor ve, columna doria,

QUP empe sem medo ao tempo
Parece desafiar a eternidade

E desdenhar dos seculos,
Entao para, respeita a mao dos homens,

Folga de ser um d'elles
Tal entre o immenso vegetal cortejo

Que me rodeia agora,
Involuntaria a vista so contempla

A nobre, alta rainha
Do vecejante imperio. Alma se expande,



66 Cancioneiro de Coimbra



Se ingrandece como ella,
Sinto crescer-me, avigorar-se o espirito;.

E o cora9o no peito
Pulsa com mais vigor, bate mais forte.

Homem ! a natureza
Quam grande te creou ! quanto pode*ras

Se nao fugisses d'ella f
Quanto es grande se d voz caroavel sua

Prestas ouvidos sempre !
Aqui juncto d frieza d'esta serra

A palmeira do onente !
Como poderam dar-lhe vida e patria

Em tarn distante clima ?
Longe, longe talvez dos seus amores

A triste se amesquinha ;
Talvez, surdos queixumes espalhando

Aos solitaries ventos,
Lamente o fertil po n'elles perdido,

Que levaria a vida,
O germen da existencia a novos filhos.

Homem, se mais piedoso,
Concede um companheiro aps seus amores.

Quam terno, quam sensivel
Foste, Linneu divino f tu que ds filhas

Da amena Primavera,
A flor Ihes deste que a existencia doira,

O favo dos prazeres.
Cora ao desabrochar, tinge-se a rosa

De virginal pudor
Jd presentindo os osculos lascivos

Do voluptuoso amante ;
Surri no caliz a assucena, o lirio

Ao sentir o bafeio
Da aura lasciva que me traz nas azas

O pinhor suspirado
De seus ternos, castissimos amores.

Fugi, fugi, ruidosos,
Crus mmistros de horrendas tempestades :

La" na deserta Lybia,
Queimadores Suoes, bramantes Euros,

Ld na torrada Arabia
Rolae sem medo os movedicos pegos

Da infructuosa areia :



Cancioneiro de Coimbra 67



Gyre em nossos vergeis suave e puro

Zephyro amigo e doce,
Que ap consorcio gentil das lindas flores

Ajude prazenteiro.
Nao tenham que chorar a patria amada

As hospedas fragrantes
Que d'Asia os montes, de Colombo os plainos

Deixaram saudosas
Por vir imbalsamar c'o active aroma

Nossos jardins e ornal-os,
E a dar-nos vida, restaurar saudes,

C'o provide e>pecifico.
Linneu ! e a patria, o mundo agradecido

De rojo aos pes nao viste ?
E aqui teu busto, o de Brotero e Serra

Nao vejo collocados !
Ah gente indigna, ah povo desalmadol

Patria. . Nao, patria e d'elles
A Europa e o mundo que os conhece e admira.

Ide c'o sacro louro,
Que ao merito, d sciencia, que a" virtude

(.om mao roubastes impia,
Coroar os simulacros odiosos

Ao despotismo, a incrcia,
A cruel ambi(jao, d hypocrisia,

A sordida ignor.mcia.
Ide; queimae-lhe o incenso da vileza :

Ide. . . sois dignos d'elles.

Coimbra Mar?o, 1821.

DO CAMOES

Brandas nymphas do placido Mondego,

Vos que o doce gemer, que os namorados

Ais do prazer ouvistes pela selva

Que incubriu tanto amor, tanta ventura

Em tempos de mais dita ; que escutastes

Os magoados suspiros da saudade,

Quando ausente d'aquelle por quern vive,

So, gemedora rolla, vai carpindo

A ausencia do seu bem, do seu amado,

E aos montes, as hervinhas insinando

O nome que no peito escripto tinha ;



68 Cancioneiro de Coimbra



Que depois, memorando a morte escura,
Longo tempo das urnas crystallinas
So lagrymas formosas derramastes,
E, por memoria, em fonte convertidas,
O nome Ihe puzestes, que inda dura,
Dos amores de Ignez que alii passaram ;
Vos ao vate os segredos recontastes,
Os mysterios d'amor, e o pranto, as queixas
Da malfadada Castro. A lyra anceia-lhe,
A voz carpe-se, os tons gemem tarn meigos,
Mas tarn cortados de uma dor tarn viva,
Que e um partir-se o cora^ao de ouvil-os.

Ausente e o 'sposo : solitaria vaga

Pela varzea de flores recamada,

No pensamento alheado revplvendo

Ledos enganos d'alma, suavissimas

Lembrar^as do passado, e a mais suave,

Lisongeira esperan^a do futuro,

Oh ! quando ella outra vez n'aquelles brakes

O tornar a apertar, quando. . . Armas soam

De cavalleiros, e corseis nitrindo

Nos atrios do palacio. . . escuta. . . E elle,

O seu Pedro, oh ventura ! Esposo, esposo

Mas pelo ausente esposo o pae responde.

O amante nao vem : juiz severe,

Pelos beijos d'amor, Ihe traz castigo

Que nao merece amor, nem quando 6 crime.

C'os filhinhos, em vao banhada em pranto,

Supplice implora os barbaros. O ferro

Imbebem crus no peito crystalline ;

E as vivas rosas, que das faces fogem,

Pela ferida a borbotoes se esvaem

C'os inocentes filhos abra<;ada,

Nao geme, nao suspira; a beijos colhe,

Uma a uma, as fei^oes que tanto ao vivo

As do querido amante Ihe retrattam.

Ja pelos labios derradeira foge

A ultima vida, o ultimo sopro em osculos

Todos amor, todos ternura. Os olhos

Ja da Formosa luz se extinguem. . . Tremula,



Cancioneiro de Coimbra 69



Inda co'a incerta mao procura os filhos,
Inda affagando imagens do seu Pedro,
Entre os arnplexos maternaes. Esposo,
Esposo. . . Esposo ! balbuciando, expira.



A. F. DE CASTILHO

DE A FESTA DE MAIO

Pelas tre\ horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja not,
* Sociedade dot pottos Amigos da Primavera, nos achavamos d sombrm
dot arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamenle o
bat el. que nos havia de tornar d Lapa dos Esteios, para celebrarmoi *
Ftsta de Maio-

CASTILHO.

Eia, amigos, ao campo ! ha jd trez horas,
Que os Tindareos Irmaos no aereo espa^o
Virao do meiodia o rosto ardente :
Eia, amigos, ao campo I as horas voao,
E o Maio alegre as festas nos convida :
Os Zefiros ligciros, embalando
Do parreiral a tremula folhagem,
Ao rio, ao barco estao chamando a turba.
^ O Deus Menino, o gracioso Maio
Nap vamos cx-lebrar na fresca Lapa ?
Pois que se tarda ? os Numes nao consentetn
No culto seu ministros pregui^osos.
Chamai d pressa as pastons Camenas,
Tomai as flautas, coroai as frontes
Co'as grinaldas, que em premio vos cingfrao
Da Primavera na primeira tarde.
Como ! o tempo ( ai da flor da mocidade ! )
O tempo as destruio ! de gramas tantas
Que existe pois f um po. Jazem desfeitas,
Sem perfume, sem cor as lindas flores,
E as verdes folhas se enrolarao murchas !
Ah ! corramos ; o pezo, que as esmaga,
Rola tambem sobre a existencia nossa :
Nossas grinaldas nos festins viverao,
Morrerao no prazer ; e nos, como ellas,
Devemos esperar, brincando, a morte.



70 Cancioneiro de Coimbra



Ouvi, Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rosto as preces nossas.

Sai correndo das limosas grutas :
Occultas no cristal do patrio rio,
Vos podeis impellir co'as maos de neve,
E fazer que o batel, qual aguia, voe.
Bellas Filhas do liicido Mondego,
Vamos passar a tarde a grata sombra,
Das lindas Gramas na famosa Lapa.
AH, se acaso nao me illude o estro,


1 3 5 6 7

Online LibraryAfonso Lopes VieiraCancioneiro de Coimbra → online text (page 3 of 7)