Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

. (page 4 of 7)
Online LibraryAfonso Lopes VieiraCancioneiro de Coimbra → online text (page 4 of 7)
Font size
QR-code for this ebook


Vos, Ninfas, vos com ellas muitas vezes
As noites do luar passais em danc.as :
Sobre urn tronco musgoso Amor sentado,
Para acertar as rapidas choreas
Com saudosa flauta a Noite acorda,
E Venus compassiva Ihe desata
Dos olhos entretanto a escura venda.
Mil Amorinhos sem farpoes, sem facho,
(Nem onde vos estais carecem d'elles)
Voao aqui e ali por entre os ramos.

Ouvi, Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rosto as preces nossas.

Dai-nos breve chegar, sereis cantadas ;
E iremo> outro dia erguer altares
De cada vosso chopo a sombra amiga,
Pondo-lhe em roda uma vistosa grade
D'aureas canas com murtas revestidas;
Em vossas ondas lancaremos rosas,
E puro leite, e saboroso vinho.
Porque tardais, 6 Naiades esquivas ?
Turba innocente de mancebos rindo
Bern merece o favor dos sacros Numes.
Nos nao vamos em lenhos alterosos,
Rocando as nuvens com soberbas velas,
G'o ferro a lampejar nas bravas dextras,
Levar da guerra a furia aos outros povos,
Lancar em fogo os bosqucs, e as cidades,
Para voltar Jos mares tormentosos
Co'um pouco do metal, que gera os crimes
Nos vamos procurar vizinha praia



Cancioneiro de Coimbra 71



Para rir, e beber de Maio em honra ;
Vamos c'roar-nos de verdura, e lirios,
Cantar ao som da flauta a Natureza,
Danc,ar no meio de innocentes gostos,
E longe dos mortaes, viver ditosos,
Poucas horas sequer, na paz dos campos.

Ouvi, Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rosto as preces nossas.

Terra, terra : e'stas a>vores das margens,
Que pra nos vao passando sobre as frontes,
Convidao a colher sua folhagem :
Saltai, colhei os mais vi^osos ramos,
Te<ja-se urn toldo, que nos roube a" calma.

A'vante ! adeos, 6 Driades, ficai-vos
Em doce paz ; o orvalho vos fecunde ;
Ache vossa raiz no estio as aguas
Tao abundantes, como as tendes hoje.
Nos vamos celebrar o mez das flores,
Quando voltarmos vos daremos gramas.



Novo me inspira agora esse murmurio,
Com que a Fonte das lagrimas se lanca
Da serpeada varzea ao rio aberto.

Junto a fresca matriz d'este ribeiro,
Onde gozou em seculo remoto
O mais ditoso par de amor os mimos,
Meu estro agora placido voltea
Por entre os cedros, e os feraes ciprestes ;
E ora ao lago pacifico se arroja,
Ora da fonte nos penedos pouza.
Comvosco nao existe o vosso amigo ;
Gira fora d'aqui no sitio umbroso,
Ld conversa co'a Musa, aprende, e canta
Gratas historias dos passados tempos.

Uma noite de Maio Inez formosa,
Ao pallido clarao da argentea lua,
Com seu Pedro fiel aqui vagava.



72 Cancwneiro de Covmbra



De seu candido amor primeiro fruto,
Lindo, qual dos Amores o mais lindo,
Um tenro filho, que a falar comeca,
Co'a pequenina mao & mai seguro,
A passes desiguaes a acompanhava.
No dextro braco do gentil consorte
O alvo braco despido entrela^ando,
Languidamente a bella se apoiava.
Traja da cor da neve, ornao-lhe as trancjas-
Rubidas rosas que reveste o musgo :
Sob um veo raro e solto arfao dois peitos,
Que estrema, que matiza, e que periuma
A flor, que he d'entre mil so digna d'elles v
O amor perfeito em fresco ramalhete.
Pelo silenci", e paz da noite amiga,
Nos extasis de amor arrebatados,
Ebrios ambos do nectar da ternura,
Vagueando em seu ermo, respiravao
Todo quanto prazer nas almas cabe

Inez, dizia Pedro, olha estes cedros,
Que doce murmurando agita o vento !
Olha as aguas do tanque, onde tao clara
Se esta dos Ceos a Lua retratando !
Ouve o rumor das ondas transparentes,
Que vem brotando da cavada penha !
Gara Inez. . . ah ! calemo-nos ; escuta

O amante rouxinol como gorgeia I

Nao o sentes mui proximo 1 quern sabe f

Talvez que em teu jardim ceiebre agora

Ao lado de uma esposa os seus prazeres;

Se assim he, refinai perfume, 6 nores,

E vos levai-lho, zefiros da noite,

No instante em que Himtneo tern de ajuntal-os.

O' minha Inez, nao ser inda possivel

Confiarmos a luz nossa ventura,

E eu dizer, sou de Inez ! . . . N'isto o mancebo,.

Apertando a seu peito o bra<jo d'ella,

De beijos Ihe inundava a mao mimosa.

Em silencio e cuidosa a linda Castro

Parava contemplando os ceos, o esposo,

E unindo a regia dextra ao seio oppresso,

Dava a resposta n'um fiel suspiro.

o Oh ! t dizia depois) que L)eos contrdrio



Cancwneiro de Coimbra 7?



Ao terno amor, a Candida innocencia,

Poz peito, 6 doce encanto, a separar-nos i

Quao melhor fora haver nascido em chocks !

La", tendo por imperio um so rebanho,

Las por purpura, e flores por diadema,

Pedro fora pastor e Inez pastora.

Teu solio quantas lagrimas nos custa !

Mas se fosse teu solio um manso outeiro,

Docel um parreiral firme em colunas

Das que dao fruto e flor, saude, e agrados,

Nao cortfra em meus sonhos o remorso,

Teu coracao ninguem mo disputara,

Nao se encobrira o meu amor. . . Oh cessa,

Cessa ( Pedro Ihe diz interrompendo-a ) :

De que servem, querida, essas lembrancas .'

Se te adoro, que temes? se me adoras,

Que posso eu mais querer ? Virtudes tantas,

Raros dons quaes os ecus em ti resumem,

Nao sao para jazer na escuridade ;

Dos reis, de teus avos te poem na estrada,

Para luzires nos corrutos dias,

Como astro de bondade entre os humanos.

Gozemos do prazer. Olha esta noite

Como he formosa, minha Inez ; nao tornes,

Eu to peo por mim, por ti, por esse

Fruto do nosso amor que te he tao caro,

Nao tornes a acordar taes pensamentos.

Queres tu, minha amada, & curta noite

Dar emprego melhor, mais proprio d'ella ?

O assento ao pe da fonte nos convida,

Vem me outra vez cantar os magos versos,

Onde quasi exprimiste o enlevo d'ambos,

Quando a p-imeira vez nos vimos juntos

Tambem de noite, e n'este sitio mesmo.

Disse, e Inez imprimindo-lhe nos labios
Co'a meiga curta boca um longo beijo,
Vamos, resp< nde, apraz me esse meu canto t
E agradar-te, inda mais; partamos logo.
Diz, e jri leva ao collo o seu filhinho.
Forceja o pai furtar-lhe o doce pezo,
Ella a ninguem o cede : O meu menino
He meu, Ihe diz ; quando eu tiver meninas,



74 Cancioneiro de Coimbra



Dar-tas-hei, desde ja chama-lhe tuas ;

Pertence o filho d mai, e ao pai a filha.

Sorrindo com ternura o ledo Amante,

Ser-me-ha dado, Ihe diz, que de teu filho
Ao menos colha uns beijos que me deve,

Ou hei de so com os teus ficar contente ?

Se tos deve meu filho, eu vou pagar-tos
Inez res-ponde, e Ihe pagou mil beijos.

Chegados sao aos bancos do rochedo.

Ja do sol o calor morreo na pedra ;
Para assento, he mister ser estufada.

Nao rias, o brocado hao de ser ramos ;

Para a pastora Inez, nenhum mais proprio

Voa ao proximo cedro, os ramos corta,

Alastra-os sobre o marmore e reclina

O infantinho, que posta a loira fronte

No maternal joelho, eis adormece.

Absorto no painel delicioso,
Nao podendo parar nem desviar-se,
Como homem, que formosa feiticeira
Prende e agita n'um circulo encantado,
Vaga o Principe a luz voluptuosa
De lua por entre arvores. Desponta
No ermo silencio o canto namorado !
O suave da voz, o doce estilo,
A musica tocante, a frase meiga
Alheao-no de si, todo elle he fogo :
Nao conhece onde esta, quern he" nao sabe :
No cahos do prazer, em que se abisma,
So ve brilhar Inez, Inez so ouve ;
E qual se nunca em bracos a apertara,
E virgem melindrosa o ceo benigno
Lha houvera ali chovido aquella noite,
Arde e delira em sofregos dezejos.
Jd nao sabe conter-se, o fim do canto
Jd nao pode esperar ; O' minha, exclama,
O' minha. . . e sem findar, pois nnu encontra
Nome que cxprima o que Ihe rerve na alma,
Voa a abraca-la sem poder fallar-lhe ;
A voz com loucos beijos Ihe interrompe,
Quer dos labios sorver-lhe os sons divinos :



Cancioneiro de Coimbra



Mas ella rindo, e a boca desviando,
Que a deixe terminar Ihe pede a custo.
- Sim, acaba ( responde ), Inez, acaba.
E emtanto hia beijando o collo, o seio.
l)epois, como ante Nume, ajoelhando,
Suspense a conremplava espa^o longo ;
E depois no rega9<> o rosto acceso
Lhe punha, como em ninho de delicias,
E no ceno esperar crescia o fogo.
So vos caladas arvores no entanto
A canc/to namorada ouvindo estaveis
Da mui ditosa Inez ! Como expirava
A derradeira nota, estremecendo
Acorda o moco, alvorac.ado surge,
E tomando a cantora a mao submissa,

Vamos, Ihe diz, a lua vai descendo,
O tdcito poente a chama ao sono :

Oh quao leve entre nos foge esta noite !
As auras pela relva estao dormindo,
Pendem com sono as arvores seus cumes,
Do largo tanque as aguas nem se encrespao.
O rouxinol que ha pouco gorgeava
Ja tambem se calou: sabes a causa ?
Talvez Ihe empe^a a voz, responde a bella,
Teimoso furto de continues beijos.

N to, nao, responde o amante, agora occulto
< o'a docil companheira em quente abrigo,

Aperta o rouxinol de amor os la^os.

E nos Inez ? ah toma o teu menino,

Talvez nao tarde a aurora, ao leito vamos,

E do fresco da noite all zombemos.

Emfim chegamos! c'o ligeiro impulso
Bate a proa no caes, o lenho treme,
Tremem com elle de seu toldo as folhas.
Salve ameno lugar, que as Gramas pizao !
Gloria ao sacro arvoredo, que diffunde
Sobre a calma do vate a sombra fria !
Gloria as auras, que prezas n'este sitio,
Das :)riades por mao aos troncos d'ellas,
Agitao com susurro a massa enorme
Da folhag-im suspensa ! honra aos que brincao
Puros raios do sol sobre o terreno,



76 Cancioneiro de Coimbra



Mai que urn favonio Ihes descobre a entrada !

Eterno amor ds aves, que em seus ramos

A vinda nossa a gorgear celebrao !

Paz ao dezerto, pnde comnosco as Musas,

Esquecidas de Pimpla, se contentao

De encher de alegres canticos os ares !

A' festa, & festa ! Reuni-vos todos,
Vinde coiner as fugitivas horas :
Como vaga que passa, ou flor que murcha,
Para mais nao voltar, se escoa o tempo.
A' festa, amigos ! Oh ! n'esta eminencia
Eis jd pronto um altar ! ei-lo cingido
Co.n largas fitas de pintadas flores !
Ante elle o rosmaninho, a murta, as rosas
TC* nao curta distancia o chao tapizao ;
Heras, e lirios candidos o toldao :
De heras e lirios adornai as frontes,
Ajoelhai : la sobe a Divindade.
Silencio ! paz ! . . Retumbe pelos echos,
Sem mistura de voz, o som das flautas.



Gracas ao teu poder, e ao teu influxo,
Es tu que a rir convidas gracioso
Minerva um pouco a abandonar seus livros (*).
Quern pode resistir-te ? emfim te cede,
Toma-te pela mao, para que a leves
A divapar em teus vistosos campos ;

ar de meditacao troca em agrados,
E ve contente abandonar-lhe a corte

1 'e seus alunos juvenil caterva,

Que alvpra^ada aos patrios lares voa.
Sim, Maio, eu voarei aos patrios lares !
Ma* cuidas que jamais distancia ou tempo
D'este dia a memoria hao de apagar-me ?
Nao : onde quer que os fados me conduzao
Sempre te hei de cantar, sempre c'roado
De teus altares me verds ministro :



() Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que e
n'aqoelles tempos cursava. So os que por ahi tem passado, podem enten-
der o alvoro^o com que he recebido.



Cancioneiro de Coimbra 77



Mas d'esta sociedade, e d'estes brincos,
Em quanto a noite se adornar de estrellas,
Nunca a lembrar^a volverei sem magoa.



Des<;amos ao batel : adeos 6 Lapa,
Adeos, fica-te em paz ; e cedo espera
Ver de novo juntar-se a sombra tua
Da Natureza os candidos Amigos.
Deixai as varas, gracejemos antes,
Nao cumpre trabalhar, para fugirmos
De urn bosque sacro a Maio, e sacro as Musas.



POETAS DO TROVADOR

NA LAPA DOS ESTEIOS

JOAO DK LEMOS Sobre as azas da poesia

A. M. COUTO Aqui nos trouxe a amizade,

j. FREIRE DE SERPA Cantamos nas lyras d'oiro

L. DA COSTA PEREIRA. . . Esp'rancas da mocidade,

A. x. R. CORDEIRO E aos bardos da Primavera.

AUGUSTO LIMA Mandamos uma saudade.

34 de junho de 1844



JOAO DE LEMOS

COIMBRA
( Recitado pelo poeta no Teatro Academico)

COIMBRA !. . . Terra de encanto,

Do Mondego alegre flor,

Venho pagar-te em meu canto

Tribute d'antigo amor ;

Nao m'o engeites porque e pobre,

Porque tens o canto nobre

Do cantor da linda Ignez ;

Nao m'o engeites desdenhosa,

NSo, que esta alma saudosa

Se inrtamma ao ver-te outra vez.



78 Cancioneiro de Coimbra



Sou-quasi teu filho; amei-te
Da vida no alvorvcer;
De Minerva o sacro leite
Por tuas maos vim beber ;
Foi ncstas margens virentes
Que co'as azas incipientes
Meu estro voar tentou,
Foi aqui que me sorria
O mundo, a vida, a poesia;
Sou quasi teu filho, sou.

Andt-i Id por longes terras,
Tantas cidades que vi,
Outros climas, outras serras,
E ds vezes scismava em ti !
De Londres vi a grandeza,
Vi o encanto de Veneza,
De Paris a seduc^ao;
Vi de Roma os monumentos,
E mesmo n'esses mementos
Foi fiel meu cora9o.

O Rheno com seus castellos,
Vienna, Milao, Berlim,
Da Suissa os cantoes bellos
Nao me fallavam a mim;
Nao fallavam como fallas,
Coimbra, nas tuas galas
Que eu sei, que aprendi de cor,
Nao diziam o que dizes
N'esse estendal de matizes,
Que tens de ti em redor.

Se nao contas tantas glorias
yuantas por Id querem ter,
Es um livro de memorias
Que um portuguez sabe ler;
Eu, por mim, n'essa tua fronte,
N'essas collinas defronte,
No teu rio de crystal,
Na tua Fonte dos amores,
No ar, na terra, nas flores,
Leio em tudo Portugal!



Cancioneiro de Coimbra 79



Aos que pedirem faqanhas
D'audaz, guerreiro valor,
Tu as podes dar tamanhas
Que os fa<jam mudar de cor;
Se quizerem da cidade
Provas de antiga lealdade
Apontas-lhe o teu Martim ;
Tens sobeja, altiva gloria,
Mas nao e, nao i tua historia
O que so me falla a mim.

Tudo aqui me falla, tudo,
D'esse tempo que la vae,
Quando nas lides do estudo
"five em cada mestre um pae;
Falla-me o sino da torre,
Com um som que nunca morre
Nos echos que a vida tern ;
Fallam-me os dias d'outr'ora
Cum folguedo em cada hora,
Com horas que mais nao vem.

Lembram-me aquelles passeios
La baixo no Salgueiral,
Ou na La pa dos Esteios,
Ou no fulgente Areal ;
Lembram-me as idas a Cellos,
As suaves tardes bellas,
Passadas da Ponte no O;
E quando ja n'essa edade,
No Penedo da Saudade
Saudades gemia so.

Nem me ficaes esquecidos,
Antigos socios de entao,
Que a esses dias volvidos
Vossos nomes nome dao;
Foi vida de irmaos a nossa,
Aqui o palacio e a cho^a
Eram por dentro iguaes;
Crencas vivas, rosto puro,
Olhos fitos no futuro,
No amor da patria rivaes.



So Cancioneiro de Coimbra



Esta mesma casa... oh ! quantas,
Quantas lembrarujas me traz !
Palco amigo, tu me encantas
Co' as imagens que me dds ;
Compoe-me inteiro o passado,
E d'esse viver sonhado
Deixa-me agora enganar . .
Mas nao. . . logar ao presente,
Que eil-o se ergue nobremente
Com novos loiros sem par.

Quaes fomos, sois hoje a esp'ran^a,
Mancebos, da patria a flor,
Do future seguranca,
Das nossas letras penhor;
Entre vos q rei da lyra
Bern vedes que vos inspira,
Brandindo um facho de luz,
Bern vedes o immense brilho
Com que o nome de Castilho
Em nossas glorias re luz.

Eia, mancebos, avante,
Vencei-nos, vencei nos, vos;
Seja a patria triumphante,
Que e o que importa a todos nos ;
Tendes crenca, fogo e vida,
Tendes a alma despida
Do lodo das vis paixoes ;
Levae ao mundo essa aurora,
E sobre os brazoes d'outr'ora
Levantae novos brazoes.

Eia, pois, COIMBRA seja
Primavera do porvir,
E n'ella, mau grado a inveja,
Portugal sempre a florir;
Oh ! Possa eterno este solio,
Este augusto capitolio
Das patrias letras, brilhar,
Que eu, tornado de respeito,
Eu sempre, dentro do peito,
Hei-de seu nome guardar.



Cancioneiro de Coimbra 81

A. X. R. CORDEIRO

A TOMADA DE COIMBRA

... Eia, guerreiros, depressa,
As armaduras cingir,
Que essa cidade p'ra Christo
Vai hoje as portas abrir.
Eu o juro nessas torres
Vao hoje as luas cair.

Coimbra a bella, a moirisca,
As largas portas abriu;
O Propheta de Castella
A prophecia cumpriu,
Por uma entraram Christaos,
Por outra o Moiro saiu.

Um cavalleiro foi visto
Que entre os christaos combateu ;
Valia por mil a espada,
Assomos tinha do ceu.
Era o Apostolo d'Hespanha,
Mai haja quern o nao creu.

Poucos dias sao passados
E na Mesquita d'Agar
Jd christa e baptisada,
Stava um guerreiro a velar
As armas com que no cerco
Soube as dos mouros falsar.

Horas depois D. Fernando
Rica espada Ihe entregou,
Deu-lhe a Rainha o cavallo
Em que elle esbelto montou,
E a infante que o amava
As esporas me calcou :

Era o bravo entre os mais bravos,
Era dos mouros terror,
Foi armado cavalleiro
Por Fernando o vencedor,
Era D Rodrigo Dias,
Era o Cid o Campeador.



82 Cancioneiro de Coimbra

A. LIMA

ADEUS A COIMBRA

. . . Risonha terra, formosa,
Eden mimoso, gentil,
Onde os prados sao de rosa,
Onde as aguas sao d'anil. . .
Amenos prados, fagueiros,
Chorosa fonte d'Ignez,
Cedros, e verdes salgueiros,
Que me ouvistes tanta vez !
You perder-vos ! ai ! quern ha-de
Matar-me a longa saudade
Em tao longa viuvez ?



A. M. COUTO MONTEIRO

COIMBRA

. . . Moram ternas saudades gemedoras

Nos verdes salgueiraes, que as margens vesteni

Do teu placido rio.
Quantas vezes sosinho alii vagando
Magoas do peito suspirando exhalo I
Quantas vezes na lyra desditosa,
Em sentidas cargoes, em versos tristes,

Choro minha ventura !
Jd de me ouvir mais triste a rola geme,
Aprendeu-me o carpir, chora comigo.
Ouve a fonte d'Ignez minhas endeixas,
E suspiram de ver-me os altos cedros,
Que o sitio enluctam co'os funereos ramos :
Memorias da infeliz meus ais Ihe acordam.

Doce fora o gemer, suave a morte

Nestes saudosos magicos retires,

Se em compassivo peito um echo ao menos



Cancioneiro de Coimbra 83



Encontrassem meus ais, meus vaos lamentos :
Se o meu viver tao so nao deslisara

N'este Eden formosissimo !

Louca, formosa Coimbra,
Linda flor de Portugal,
Bellezas, que os ecus te deram,
Na terra nao tern rival.

Coimbra i de Maio d.- 18^2.



ANTONIO DE SERPA

COIMBRA

Quem nunca viu Coimbra
Pela brisa embalada
Do Mondegp,
Que de amorosa timbra,
Na margem reclinada
Com socego,

Nao sabe o que e belleza,
Ai ! nao conhece a filha

Dos amores,
Mais nobre que Veneza,
Mais linda que Sevilha

Sobre flores ;

Gentil como Granada,
Granada, a flor mais bella

Das Hespanhas,
Como ella decantada
Mais rica inda do que ella

De facjanhas.

. Coimbra, teus monumentos
De Godos e de Mouros,

Jd desfeitos,
Sao altos juramentos,
Que attestam aos vindouros

Os teus feitos.



Cancioneiro de Coimbra



For Hercules fundada,
Tu Viriato viste,

O valente ;

De Roma foste amada,
Qual outra nao existe

No Occidente

O Suevo e o Alano
Teu sceptro disputaram

Ferozmente ;
Amou-te o Godo ufano,
Os Mouros alindaram

Tua frente.

Da velha monarchia
Depois corte guerreira

D'alta gloria,
Em grau de valentia
Sends sempre a primeira

Pela historia.

De Affonso o Grande a sombra
De noite inda l vela

Protectora ;

Phantastica inda assombra,
Qual forte sentinella

Veladora.



As auras que sussurram
Nas folhas bulicosas

Doces cantos,
De Ignez inda murmuram
As queixas lamentosas,

E os prantos.

Coimbra, patria minha,
De dia rodeada

De verdores,
A' noite te acarinha
A lua prateada,

Meus amores.



Cancioneiro de Coimbra 85



Curvada sobre a margem
Co'a fronte n'esse outeiro

Tao gentil,
Afaga-te da aragem
O sopro mais fagueiro,
Mais subtil.

O rio ds tuas plantas
Reflecte sobre o dorso

Tua imagem ;
Murmura gramas tantas
Com desleixado

Doce aragem.

A lympha d'esse rio,
Que corre, d'alva prata,

Para o mar,
For tardes Id do estio
Que imagens que retrata
De encantar !



Imagens tao singelas
De gramas, tao altivas

De mirar-se,
De timidas donzellas,
Nas aguas fugitivas
A banhar-se.

Os languidos salgueiros
Se curvam graciosos

Sobre as aguas. . .
Que fremitos fagueiros !
Que beijos amorosos I

Ai ! que fraguas !

E onde ha ahi semblantes
Mais bellos que os das filhas

Do Mondego ?
Nos olhos deslumbrantes
Amor, amor, Id brilhas

Com socego.



86 Cancioneiro de Coimbra



As murmurantes brisas
Aos echos amorosos

Vao levar

Mil queixas indecisas,
De seus ais maviosos

O cantar.

E tudo solta um canto,
Tudo brando murmura

Beijo ou dor.
E tudo diz encanto,
E tudo diz ternura,
Diz amor.

Salve, Dentil princeza f
Salve da Beira filha,

Meus amores !
Mais nobre que Veneza,
Mais linda que Sevilha

Sobre flores 1



F. DE CASTRO FREIRE

A FONTE DO CASTANHEIRO

. . . Fonte do Castanheiro, a tua linfa
Hontem da lua aos raios prateada,
Hoje corre estendida pelas trevas,
E em seu murmurio triste e como a rola
Que d'entre as matas geme

Oh ! silencio. . a minh'alma que s'inunde
Neste pelago imnrunso de tristeza,
E farte a sede que ganhou no mundo,
Quando illudida desvairou por elle
Em cata de ventura.

Ou antes, se vos praz. cantai mas triste,
Triste seja o estribilho, seja accorde
Do vento ao sibilar, aos echos lugubres,
E ao murmurio da linfa gemedora. . .



Cancioneiro de Coimbra 87

J. FREIRE DE SERPA

SOLAU DO INFANTE D. JOAO
ou A negra fafanha de Sub-Ripas

. . . Que mnco e aquelle, de semblante pallido,
Que airoso trota no veloz ginete ?
Aereo mantp sobre o corpo esqualido
Ondeia ao vento.

De espa<;o a espa<jo o acicate agudo
Com ancia crava do corcel na ilharga ;
Do elmo pende-lhe, a bater no escudo,
Negro penacho

' Aos crebros saltos, nas ferradas grevas
Lhe ro<ja a espada com fragor de morte ;
D'echos em echos pelas bastas trevas
O som reboa.

Sob a couraca o coracao Ihe anceia,
Direito ao muros da formosa Coimbra.
Jd cerca, as redeas ao corcel sofreia,
Que pdra humilde.

Estreitas ruas da cidade gothica
Eil-o atravessa, a demandar os pacos,
Os pacos tristes, onde, planta exotica,
Definha a infante.

Trepa, do portico, a spiral sombria ;
Da spiral passa para a sala d'honra ;
A estreita porta do aposento enfia. . .
A esposa dorme ;

Dorme no thoro conjugal despida ;
Os alvos membros alvo linho cobre ;
Um sonho placido, entre morte e vida,
Lhe anima o rosto.

Em pe o infante, face a face ao leito,
E' qua! da morte macilenta estatua.
Fulge da alampada o clarao desfeito
Na fronte pallida.



Cancioneiro de Coimbra



Mas eil-o accorda do turpor, e estende
A mao de ferro sobre as frageis roupas,
Que ao chao arroja . Oh ! que ninguem defende
A pobre esposa !

Despida, e alva como a neve pura,
Surge do somno espavorida a triste ;
Os olhos crava na fatal figura
Do esposo iniquo.

Os olhos crava, da-lhe urn riso ainda,
Que vae na ponta d'um punhal finar-se.
Foi riso extreme n'essa face linda,
Foi rir da campa.

L entre os seios, donde o rir brotara,
O agudo ferro do traidor se embebe.
Em ai de morte quasi o rir trocara. . .
Tempo nao teve.

Jesus!. . . ainda Ihe assomou no aspeitp ;
Jesus ! . . . morreu-lhe sem chegar ao labio;
Jesus ! . . . la dentro foi buscar-lho ao peito
Punhal dantnado.

Cahiu por terra a malfadada, morta,
Ao revolver-se no vermelho sangue. . .
O cavalleiro guarda o ferro. A porta
Nos gonzos range. ..



F. PALHA

A MINHA MAE

Nessa alta cidade
J3 reina o misterio I
Tao triste ! . . Parece
Ser la cemiterio 1

Que paz, que socego !
O brando Mondego
Nao oi$o a chorar



Cancioneiro de Coimbra 8a



Beijando essa relva!
Nem dentro da selva
Uma ave a cantar!

A ra ML csta. .. onde ?
Callada se esconde
No verde paul !
Estrellas brilhantes
Semelham diamantes
N'um manto de azul !

Silencio ! Que e noite
Na terra e no mar !
Silencio ! Que est'hora
Foi feita p'ra orar I



A. A. SCARES DE PASSOS

A FONTE DOS AMORES

Eis os sitios formosos, onde a triste
Nps dias d'illusao viveu ditosa ;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d'amor inda Ihe guardam.
Oh ! quantas vezes, solitaria fonte,
Apos ionuo vagar por esses campos
Do placido Mondego, n'estas margens
A namorada Ignez veio assentar-se,
E ausente do seu bem carpir saudosa,
Aos mantes e as hervinhas ensinando
O name que no peilo escripto tinha I
E quantas. quantas vezes no silencio
Desta grata soidao viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sos felizes,
Nos extasis da terra os ceos gosando !

Pobre, infeliz Ignez ! breves passaram
Os teus dias d'amor e de ventura.
Ao regio moco o cora^ao renderas,
E o que em todos e lei, em ti foi crime.
Eis do barbaro pae, do rei severe,



go Cancioneiro de Coimbra



Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante do teu bem, ao desamparo,
Ai ! nao pude^te conjurar-lhe as iras
Debalde aos pes d'Affonso lacrimosa
Pediste compaixao ; debalde em ancias
Abracando os filhinhos innocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade : a voz dos impios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio crystalline,
Que tanto amcu, oh barbaros ! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonisante, os doces filhos


1 2 4 6 7

Online LibraryAfonso Lopes VieiraCancioneiro de Coimbra → online text (page 4 of 7)