Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

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Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos innocentes abracada expiras.

Inda, infeliz Ignez, inda saudosos
Estes sitios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os eccos. brizas,
Parecem murmurar a infanda historia ;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
<^omo que em som queixoso inda repete
As margens, e aos rochedos commovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.



A. AYRES DE GOUVEA

NUM ALBUM

A mim do Mondego a flor,
Amigos, nao, nao me falla
So n'aragem que se embala
Nos bracos do salgueiral,
Junto ds horas do sol-por.
. . . E mais que tudo me fala
Nuns olhos que eu aqui vi,



Cancioneiro de Coimbra 91



N'uma vida que eu vivi
Tao doce que nem sonhdl-a
Pode quern nunca a viveu.
. . . Vida d'amor, d'esperanqa,
Vida que nunca se alcanca
Sem muita lagrima e dor :
Vida que extingue o desejo,
Vida que sella c'um beijo
A jura d'eterno amor!



THOMAZ RIBEIRO

PENEDO DA MEDITA^AO

Rochedo, como ! sosinho
Tao distante da cidade
So do su^surro dos montes,

1 >o rumorejar das fontes,
Da branda relva do prado,
Das franjas dos horisontes
Tu queres ser festejado ? !

Meditacao ! como e grande
Este teu nome, rochedo !
Oh como entende este nome,
Quern ama, e soffre em segredo !

Sombrio, impassive!, mudo,
Que esperas ? do mundo alguem ?
Gigante inerte comtudo
Tu choras, porque ? por quern ?

Do monte cortado a pique,
Porque, sentado n'altura,
Espreitas tao debrucado,
Firme, attento, fascinado,
La abaixo o fundo do prado,
Que te ha de dar sepultura ?
Nem ves, victima da sorte,
Que por fatal magnetismo
Tu pendurado no abysmo
La tens d'encontrar a morte ?! ...



92 Cancioneiro de Coimbra



Do meu soffrer resignado
Es eloquente memoria,
Es o padrao mutilado
Da mmha troncada histpria ;
Es ! nao vao muito distantes
Mementos, em que, a seu lado,
A mim e a Deus o jurei,
Nos poucos, breves instantes,
Que, n'esta pedra sentado,
Junto d'ella meditei.

Tu queres por companheiros
So estes monies tao tristes ;
Da que"da, que ha de matar-te,
Ves a distancia, e persistes ;

So d'estes aridos monies,
Onde tanto amor senti,

Eu amo a triste saudade,
Que as lindezas da cidade
Recordam-me o que eu perdi ;

Deixae-me, perdido o tino,
Prendeu me um cego destine,
Sei que me vou despenhar;
Bern perto chammeja o incendio,
Debalde bradais detende-o
E set, que me hei de abrazar;
Juncto a mim negreja o abysmo,

E por fatal magnetismo
Heide-lhe a altura salvar.

Ai ! n'esses breves instantes,
Que juncto d'ella scismei,
Que de Epopeias gigantes
Goncebi, se as nao cantei ! !
E ella sorrindo sempre
No monte, no val, nas flores,
Do ceu na amplidao immensa
E amei-a, quando sorria,
Como a luz d'ultima crenca,
Que mata, se tern um fim ;
E ella linda, linda. . . e fria
Como a estatua da indif renca
Sentada alii juncto a mim ! 1



Cancioneiro de Coimbra q3



Perdi-me f 6 tarde, se esperasse ao menos,
Dias serenes d'um viver feliz. . .
Mas nunca !. . . Ai rozas, em que eu leio amores,
Pendidas flores, que nao tem matiz.

Rochedo, ao menos ao vicoso prado,
Onde encantado teu olhar ncou,
Mandas o pranto, que te inunda o peito,
Ultimo preito de quern muito amou.

Mas eu . fonjado a segredar sosinho
N'este caminho de miseria e dor,
N'um rir fonjado, que ninguem presume,
Escondo o lume d'mfinito amor.

Alma, nao deixes de saudar constante
Clarao distante da longinqua luz ;
Que se Scares sem a imagem d'ella,
Erma capella ! ! que te resta ? a cruz.

Fujamos, meu pensamento,
Deixa este val d'amargura,
Que apos o negro tormento
Vird talvez a loucura ;
Vejo-lhe o vulto, e medonho,
Ouco-lhe o rir faz tremer
Tem o andar pezado e lento. . .
Fujamos, meu pensamento,
Nao quero louco morrer !

Coimbra i855.

AMELIA JANNY

SONETO

Do Moodego nas ribas murmurosas,
D'um dia procelloso em manna fria,
Entrei da vida a estrada erma e sombria
Onde, entre espinhos, vicejavam rosas.

Crianca doida em boras reman^osas,
Soltei ao vento os cantos d'alegria,
Festejando a alvorada que sorna
Da minha alma as visoes puras, radiosas.



94 Caricioneiro de Coimbra



Depois sonhando devassar arcanos,
Penetrar do porvir na senda escura,
Busquei verdades, encontrei enganos.

Hoje, & beira do abysmo mal segura,
No relogio fatal dos desenganos
Conto os mementos de fugaz .ventura.

Coimbra, 1889.



JOAO DE DEUS

PENEDO DA SAUDADE

Versao da poesia latina de Santos Valente
a Alberto Telles

Que lagrimas de louca saudade
Nao derramou aqui Dom Pedro outr'ora
Vendo a ordem de el-rei, seu proprio pae,
Ignez assassinada !

Elle aqui vinha a tarde alheio a tudo
Vasar do fundo de alma os seus gemidos,
Emquanto o pranto Ihe offuscava a luz
Dos olhos arrasados !

E inda hoje em dia ao despedir da tarde,
Quando a noite assim vem baixando a terra,-
Nao nos parece ouvir como que uns ais
A quanto nos rodeia ?

Nao nos parece o musgo d'estas rochas
Orvalhado de pranto, e que suspiram,
Ainda como entao, arvores, ar,
E ate as proprias pedras ?

Logar encantador ! D'aqui se aicancam
Largas campinas a perder de vista,.
E alvejando disperses os casaes
Por hortas e pomares.



Cancioneiro de Coimbra 95



D'aqui se avista o languido Mondego,
Onde a face da lua se retrata,
Atravessando os campos e vergeis
Que inunda e tertiliza.

Da com as suas aguas mais realce
Aos nobres e sagrados monumentos
Da cidade imminente. Em baixo as ras
Lcl se ouvem jei coaxando.

Que bello, amigo, as horas do silencio
Ver este ceo de estrellas esmaltado,
Emquanto a lua, emula do sol,
Pranteia monte e valle !

Aqui nos chama a doce poesia;
Merece-nos a musa alguns momentos ;
Nem sempre o estudo austero. Ouve-se aqui
O mocho de Minerva.

Aqui se ostenta a rica natureza !
Aqui se aspira urn haltto divino !
Ah vem, amigo, ouvir o rouxinol
No bosque solitario !



THEOPHILO BRAGA

ADEUS A COIMBRA
Par ocasiao da formatura do seu curso

As flores virentes vestiram o prado,

O vento, que o aroma derrama, as desfolha ;

Infunde tristeza sentir o passado,

Pois ve-lo ? se o pranto o esconde a quern olha.

Ai risos da infancia, que amor nos exprimem,
Que a vida despertam na rapida aurora ;
Passaram 1 que dores estranhas me opprimem,
Que tempo ditoso nao foi. . . mas agora ?



96 Cancioneiro de Coimbra



Sou folha cahida na extensa floresta,
Sou folha perdida no arido valle I
De tanta alegria sincera o que resta ?
Na muda agonia, que a lagryma falle.

Se uma ave, que emigra das brumas, nao deve
Sentir do seu colmo deserto a distancia ?
Feliz primavera ! voou-nos tao breve,
Mas deixa da eterna saudade esta ancia.

Coimbra, 1866.



ANTHERO DE QUENTAL

GANTIGAS

Lindas aguas do Mondego,
For cima olivaes do monte !
Quando as aguas vao crescidas
Ninguem passa alem da ponte !

O' rio, rio da vida,
Quern te fora atravessar !
Vais tao cheio de tristezas. . .
Ninguem te pode passar.

Mas dize tu, 6 Mondego,
Pois todos levam sea fado,
Tu que foges e eu que fico
Qual de nos vai mais pesado ?

Tu, ao som dos teus salgueiros
Levas as tuas areias. . .
Eu, ao som dos meus desgostos,
Levo estas negras ideias. . .

Debaixo do arco grande,
Onde a agua faz remanso,
Tern paz certa qualquer triste
Que ande a busca de descanco.



Cancioneiro de Coimbra 97



O luar bate no rio ;
Tem um magico fulgor...
Nao ha assim veu de noiva,
Nem ha mortalha melhor I

Lindas areias do rio !
Uma traz d'outra a fugir,
Vao direitas dar ao mar !
Ah ! quern podera dormir !

Quem tiver amores tristes
E andar roto a mendinar,
Dd-lhe a agua um brando leito
E ha-de vestil-o o luar !

A noite, o salgueiro i negro...
Com o vento meneando,
Parecem filas de frades,
Todos em coro resando.

O' frade, fecha o teu livro,
Vae caminho do teu fim .
Que eu ja tenho quern me enterre
Mais quern me reze latim !

Lindas aguas do Mondego,
E os salgueiros a cantar I
Quando a cheia e de tristezas
Ninguem a pode passar !



J. SIMOES BIAS

ESTANGIA

Quem sou ? perguntaes vos, mocas de Hespanha.

Sou das terras que o limpido Mondego

Com sua vea crystallina banha.

A minha terra em gloria foi tamanha

Que a nao excede a patria de Quevedo ;

Nos campos me creei da linda Ignez,

Mocas de Hespanha, emfim, sou portuguez.



JOAO PENHA

CAN^AO DC EOHEM10S



V< >.. - .-.> i* ^; -. .\> ^ ^> , .-:.'>,



a Ytda LX>S cihoes
Dos roixos falerocs <
Soim-tx^ a Cures cbos tuaakfios
Som-cos tics bos^aes a Yeatts



Nc$ cciestos pof vrcs via sckccia
A <in?s:-i $>? eocoettra <joe o somno
Qweizr^cEcl C3 tocos* quie so *a
Os lrr(x> se eB&CQMfWR da scieocta da vida,



Ac v ito o$ cdb0)os ! per moaws e valies,
no rvtsso oa $regc*s choreas !
oats ra^ats, vibrae os cvtnbales J



GOXQALVES CRESPO

ESTUDAXTIXA

ActMvia, oomha Tltereza,
LVsc^rra a jnutelbt tua !
Esoalrta-se a luz <ia lua
poetica dveza. . .

sinoeiro* da mirv;e:r>
o ciaro M<xxieo,
A noire corre em soo&io" .
rrxinha Tbereia !



d-omie ^uem tern
E o tec ^c*rto e cerrado !

o ieir



Cancwnxtro <U Ct/imbra



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Ha* d^rme a ^r*.",;
Gerra-i* s j*r,.^> > ..
Eii.h*-^ . .z -;<



Er.vt

M J-tr ir t C'yrr* o
Q^* trit'tza t - n -t
Ai ! dor=^t, C'irrc*;.



ioo Cancioneiro de Coimbra

CONDE DE SABUGOSA

LUIZ VAZ

O sol da lusa Athenas sobredoira
A fulva cabelleira emmaranhada
D'um moco cuja fronte e levantada,
Garboso o busto na co9ada coira.

Da gorgeira Ihe emerge a barba loira,
Pende-lhe 4 cinta a irivquieta espada
Prompta a bater-se por mulher amada,
Prompta a atirar-se contra a gente moira.

Nos campos do Mondego divagando,

Poeta e namorado e cavalleiro,

Queda-se as vezes nos choupaes scismando...

E' Luiz Vaz o futuro aventureiro
Que julga ver o rio ir engrossando

Com lagrymas de Pedro o Justiceiro !

>

ANTONIO FEIJO

( Sob o pseudonimo de Ignacio de Abreu e Lima)
CONIMBRICA

O amor d'nm estudante
Nao dura mats que uma hora. . .
Que o diga a pobre Violante
Que todd a gente namora !

Junto aos Palacios Gonfusos,
O- dias, passa-os a porta,
Fazendo girar os fusos
Da sua mc-ada torta.

D'olho alerta, nada esquivo,
E coracjao sem maldade,
Em cada anno lectivo
Namora uma faculdade.



Cancioneiro de Coimbra 101



Quern dera ver-te 1 Estds velha,
Mas nos teus olhos, talvez
Descubra ainda a scentelha
Que me inspirou tanta vez,

Quando, cabellos ao vento,
E a capa negra ao luar,
Soltava o meu pensamento
Como uma aguia a"esvoa<;ar. ..

As vezes voltava exangue,
Mas st-mpre, como os condores,
Deixava um rasto de sangue,
Sobre um caminho de flores I



MANUEL DA SILVA GAYO

DIAS CORRENTES
(Pane HI da ecloga Lemano )

Lograssem dguas passadas
Atraz voltar ! Quern o de"ra !
Primeiras fructas coradas,
Quern de novo vos colh- ra
Do mesmo orvalho orvalhadas !
Ah ! Quern de novo logra>a
O Sol dos dias ausentes. f
Que hoje outra vida eu levara
Se aquelle Sol me doirdra
Meus tristes dias correntes !

Uma outra vida, apartada
Da que level por meu mal,
Pois foi vida desgarrada
Por que so dei, afinal,
Depois de desbaratada.
Mas e destino sabido
Que so depois de o perder
Bern se queira ao bem ptrdido,
E veja nao ter vivido
Quern ja vae a envelhecer.



Cancioneiro de Coimbra



Mo<jos zagaes de hoje em dia,

Nenhum de vos me conhece,

Pois nem vos amanhecia

Quando Sol ( que mal me aquece )

Jd de alto entao me aquecia.

Zagalas, neste pa tor

Mal outro sonhnes e vedes

Que, ao tempo de seu vendor,

De novos beijos d'amor

Curti'a fomes e sedes.

Mas que mal faz que & vontade
Na minha possa dobrar,
Mocos zagaes, vossa <. dade,
Se o uso do bem cantar
Entre ellas poz egualdade ?
Se sao no canto ligeiros,
Velhos e novos pastores
Tambem no mais sao parceiros,
E jd nos fez companheiros
Quern nos criou cantadores.

E pois que, cepo ou vergeis,
Somos uma e a mesma lenha,
No que vos di^a achareis
Porque t u consumido venha
Aviso que lembrareis
Depois. sd me seri dado
Viver para vos ouvir,
Cuidando ser mcu passado,
Mas de tristezas lavado,
Que volta em vosso porvir !

Nunca deix is vosso rio,
Se e espelho de v rdes monies
E de olivedo sombrio.
Nunca deixeis vossas fontes,
Chorando por vos em fio.
Nunca por famas levados
Ai ! nunca de longes terras
Busqueis os fructos ga^ados,
Pois vos serao amargados,
E em tudo sd tereis guerras.



Cancioneiro de Coimbra io3



Tal foi, tal foi meu fadario. . .
Porque atraz de alheios cantos
Levado andei, peito vdrio I
Desfiz m'eus dias em prantos
E fiz da vida calvario.
Para guardar o de estranhos
Meu proprio gado deixei ;
Mas, por castigo, em vez de anhos
So, entre os homens, rebanhos
De feros lobos achei.

E meu mais vivo soffrer,
E minhas penas constantes
Nasciam de longe ser
A frauta que fora d'antes
A graca de meu viver.
Pois desque, apartado desta,
Doiradas frautas tangf,
Nunca mais, troca funesta,
Ninguem, com trinos de festa,
Ou brados de dor venci.

Nunca assim, mo9os zagaes,
Deixeis por novas cantigas
Trinados e duros ais
De vossas frautas antigas,
Por muito que outras ou^aes.
Olhae que se agora pude
As almas destes logares
Vir acordar, foi virtude
So desta avena, da rude
Cigarra de meus cantares.

E se quereis ver amados

Os vossos cantos, entao

Que os passes por vos andados

Perdidos alem nao vao

Da extrema de vossos prados.

Se ouvidos vos quereis ser,

Que as queixas de intimos males

Nao vao ao longe hater

Da terra onde hao de morrer

Os echos de vossos valles.



104 Cancioneiro de Coimbra



que para alguem na vida'

Contar seu bem ou seu mal

Ha so a falla nascida

Na mesma terra natal

Dessa alma, alegre ou sentida.

E so tamhem hao de amar

Seu canto os que em seu torrao

Tiveram bercos e lar,

Que 6 isto o que faz medrar

Egual sentir e razao.

E nao vos pareca estreito
O vosso torrao, pastores,
Pois este e torrao de geito
Para seara de amores,
Que A farta vos encha o peito.
Outra nao ha que assim seja
Terra dr doces cantigas ;
Por onde quer que se esteja
O ar ouvis ? rumoreja
De vozes de raparigas.

Que raparigas entao f

Ah ! vede que airosas mocas

As lavradeiras nao sao.

E as que por prados e boucas

Guardando rebanhos vao 1

Fazem seus rostos cuidar,

De lindos que Deus os fez,

Que ajuntam ao pennujar

Das fructas a amadurar '

Lourejos de pao tremez.

Mas e a Mond^go claro

Que mais do que a tudo quero,

Pois delle so colho o amparo

E delle o socego espero

De que ora ja sou avaro.

E porque tanto eu Ihe queira

6 que, lembrando a docura

I)a minha edade primeira,

A terra de sua beira

Venho pedir sepultura.



Cancioneiro de Coimbra io5



Rio de fallas mais tristes,

De mais saudosas toadas,

Ai ! nunca no mundo o vistes I

Tao vivas coisas passadas

Nunca a ninguem as ouvistes J

E nao ha hora que caia

Mais a geito de as ouvir

Do que esta, em que o sol desmnia,

E a voz das aguas se expraia

Como uma prece a subir.

Ouvi-o, por que o louvor

De suas saudosas tardes

Emquanto passando for

O tempo que aqui passardes

Nos vossos seja maior

Do que em meus versos ; pois quanto

De minhas can<;6es sabeis,

Quando eu por Mondego canto,

Nao 6 tao bello nem tantp,

Que mudos vos vos fiqucis.

Ouvf-o, para que entao

De vossos sonhos ou maguas

M- Ihor se afine a can^ao ;

Pois sempre por estas aguas

Cuntigas se afinarao.

E com a graca e valia

Que, assim, no cantar puzerdes

Nao estranheis se algum dia

Atraz de vos, a poifi'a,

Brutos e rochas moverdes.

Ouvi'-o sempre, zagaes,
Que so de ouvf-lo parece
Que, em roda, quanto vejaes
Humano se torna, e esquece
As condicoes naturaes :
Sao tudo almas e vidas
Desde o monte ao verde prado,
E as oliveiras sentidas
Viuvinhas lembram, vestidas
De luto alliviado.



io6 Cancioneiro de Coimbra



Ouvf-o, pois quern o ouvir

Maior affecto ha de ter,

P,or Mondego nella ir,

A Patria que o viu nascer;

Se para longe partir,

Quanto mais distante for,

Mais Ihe hao de os rios lembrar

Deste paiz do Senhor

Onde se morre d'amor,

E se moireja a cantar.

Ouvi'-o, que so elle ha de
Dar-vos a doce riqueza
Daquella conformidade,
Que vence toda a grandeza.
Para rir do one esta Edade
Tern por melhor galardao
Achara 4 fonja vital
Quern dentro do cora^ao
Entenda a sabia licao
Dos rios de Portugal.

Ouvi'-o : la" vae contando
Lindas historias contadas,
Onde ha salgueiros fallando,
Milagres de maos sagradas,
E peitos d'amor penando ;
Onde o Porvir ao Passado,
Em desconto dos maus dias,
Promette canto afamado ;
Ate que ao tempo provado
Responda com prophecias.

ALFREDO DA CUNHA

IN ILLO TEMPORE...

( Na volta do correio, ao receber o In illo tempore. . . ,

crdnicas coimbras que Tnndade Coelho dedicou

ao amor destes versos )

Nao e livro, & ceu aberto !
Que queres tu, em verdade,
Que eu diga dele, Trindade,
Que tu nao saibas ao certo ?



Cancioneiro de Coimbra 107



Torno agora a ver de perto,
No teu livro, uma outra idade,
Que eu recordo com saudade
Sonho de que hoje desperto !

Com que amor e com que empenho
Tu fazes voltar a" vida
A mocidade perdida !

Se at6 no proprio retrato
Em que os meus olhos detenho,
Tao perfeito e tao exacto,

Como tudo ali revive !
Vejo o cabelo que live
Sem ver as rugas que tenho !



Bossaco, IQ03.



QUEIROZ RIBEIRO

ULTIMA NOITE

A Luiz de Magalh&et.

O Mondego reflectia,
For entre limpidos ais,
A amarga melancolia
Que tortura os salgueiraes.

E o clarao da lua cheia,
Ethereo, vago. indeciso,
Espraiava-se na areia
Como urn languido sorriso.

Seguiamos pela estrada ;
Foi essa a vez derradeira
Que te send, doce amada,
Suspirando d minha beira.

Os rouxinoes, no entretanto.
Nao paravam de cantar ;
Havia n'aquelle canto
Um echo do teu pezar. . .



io8 Cancioneiro de Coimbra



Lacrimosa e commovida,
Cravaste os olhos nos meus. . .
O' noite da despedida !
O' magoa do eterno adeus !

Depois do sentido abra<jo,
Houve um silencio completo,
Em que o tremor do teu bra<;o
Fallava do nosso affecto.

Mas nao fingi qualquer crenca
No solitario porvir.
Uma paixao tarn immensa
Nunca se deve illudir !

Assim, o longo tormento
Da minha longa mudez
Exprimia o soffrimento
E. . . um desengano talvez.

N'isto, suave e tranquilla,
S6a uma voz na amplidao ;
E eu pensei quasi, ao ouvil-a,
Que escutava o cora9ao :

Adeus Coimbra saudosa,
Voltada para o Mondego I
Longe do bem que amo tanto
Vtverei com mats socego !

Affastou-se a voz ignota,
Mas este queixume brando,
Verso a verso, nota a nota,
Dentro em mim ficou vibrando.

E, no peito dolorido,
Minha alma triste e chorosa
Bradou, n'um fundo gemido :
Adeus Coimbra saudosa I

Entao, magoas verdadeiras
Trouxeram-me ^ phantasia,
Como doces companheiras
De quern eu me despedio,



Cancioneiro de Coimbra 109



A tua alcova singella
D'um adoravel conchego,
E a nossa antiga janclla
Voltada para o Mondego.

Julguei-me longe, sosmho,
Despertando tnstemente,
Como ave expulsa do ninho
Onde vivia contente

E senti no olhar incerto
A nevoa escura do pranto,
Porque entrevia urn deserto
Longe do bem que amo tanto.

Mas a cantiga e traidpra
No modo como termina,
Que a saudade inquietadora
Inda agora me domina.

E j3 que a nova existencia
Nao me trouxe o desapego,
Apesar da tua ausencia
Nunca mats terei socego !



ALBERTO OSORIO DE CASTRO

FOGUEIRAS DO SAO JOAO

O Antonio Foga<;a, anda comigo,
Levanta-te da cova, vem passear !
Ue braco dado anda dai, amigo,
Vem recordar aquele tempo antigo.
Ollia Coimbra como e linda ao luar.

A. O. DE C.

O duplo manjar branco do seu seio,
Biquitos dum dourado de arrufada,
Tinham mais mel e mais fino recheio
Que os pasteis de Tentugal e a queijada.

Mas nem pasteis de Santa Clara, nada,
No val de Coimbra, claro rio ao meio,
Tinha o sabor dos bicos de arrufada
Do duplo manjar branco do seu seio.



no Cancioneiro de Coimbra



O Coimbra, iniciadora de rapazes I

Onde mais frescos, rusticos lilases

Nos deixam na lembransa igual perfume !

Tvi e"s a gra^a, Coimbra I adolescente.
Como brilham jd longe para a gente
Fogueiras do Sao Joao, florido lume I

Timor, Lahane, 1900.



CAMILLO PESSANHA

CELLAS

E eis quanto resta do idyllic acabado,

Primavera que dura um momento.
Como vao longe as manhas do convento !

Do alegre conventinho abandonado. . .

Tudo acabou. . . Anemonas, hidrangeas,
Silindras, flores tao nossas amigas !
No claustro agora vi^am as ortigas.
Rojam-se cobras pelas velhas lageas.

Sobre a inscripsao do teu nome delido.
Que os meus olhos mal podem soletrar,
Cancados. . . E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar !
Enobreceu-o a quietacao do olvido.
O doce, ingenua inscripcao tumular !



EUGENIC DE CASTRO

AO PRATEADO MONDEGO

Para, Mondego ! Para, nao prosigas,
Prateado rip, nao caminhes para o mar;
Ouve da minha boca as palavras amigas,
Que te podem salvar !



Cancioneiro de Coimbra in



De ambicioso que e"s, ate parece
Que tens urn fragil cora^ao humano ;
A Ambi^ao te subjuga e te endoidece,
Rio, quer's ser oceano !

Julgas ir para a luz e vaes p'ra as trevas

Chegado la,

A agua doce que levas

Salgada se tornara. . .

Antes que a tua alma chore arrependida,
Para, ambicioso ! pard o mar nao vas,
Que es sobre a areia como nos na vida,
Que nao podemos voltar atraz. . .

Olhos n'um traicoeiro, fementido norte,
Nao ouves dos mochos os fataes presagios :
Onde a vida buscas, vaes achar a morte,
Eras bom e manso e vaes fazer naufragios !

Deixaste as serras limpidas, honestas,
as aldeias vicosas,
Deixaste a sombra mansa das florestas,
E vaes beijar cidades crapulosas !

Poe em mim os teus olhos de berilo,
Rio onde, ingenuo e moco, me mirei :
Gomo tu, na Ambi<jao busquei um flavo asilo,
E ve o que lucrei...

Ve como volto, a alma esfarrapada,
Desiludido, cheio de amargor,
D'essa ululante Babiloma mais danada
Que a do alto rei Nabucodonosor.

Fui a cata de nitilas grandezas,

Palacios d'oiro, homens leaes, mulher's divinas,

E so achei infamias e torpezas,

Feras e ruinas.

Tristes os que caminham n'esta vida,
Gegos, atraz d'uma illusao traicoeira !
Onde eu vira os jardins fabulosos de Armida,
Achei uma estrumeira !



H2 Cancioneiro de Coimbra



Busca na solidap um carinhoso abrigo,
Enforca as amhicoes que te andam a tentar ;
Pdra, meu doce, meu prateado amigo,
Nao corras para o mar !

Antes te beba a terra ou te transforme em lago !
Detem-te ! e se a piedade a alma trazes presa,
Lava-me a vista, que tao suja trago
De ver tanta impureza !



ANTONIO NOBRE

CARTA A MANOEL

Manoel, tens razao. Venho tarde. Desculpa.

Mas nap foi Anto, nao fui eu quern teve a culpa,

Foi Goimbra. Foi esta payzagem tnste, triste,

A cuja influencia a minha alma nao reziste.

Queres noticias ? Queres que os meus nervos fallem '?

Vi ! dize aos choupos do Mpndego que se callem

E pede ao Vento que nao uive e gema tanto :

Que, emfim, se soffre, abafe as torturas em pranto,

Mas que me deixe em paz ! Ah tu nao imaginas

Quanto isto me faz mal ! Peor que as sabbatinas

Dos ursos na aula, peor que beatas correrias

De velhas magras, galopando Ave-Marias,

Peor que um diamante a riscar na vidra^a,

Peor eu sei lei, Manoel, peor que uma desgra<ja !

Hystensa-me o Vento, absorve-me a alma toda,

Tal a menina pelas vesperas da boda,

Atarefada mail-a ama, a arrumar. . .

O Vento afoga o meu espirito n'um mar

Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhoes

Sao todos feitos de luar, recordacSes.



. . .Hoje, mais nada tenho que esta

Vida claustral, bacharelatica, funesta,

N'uma cidade assim, cheirando essa indecente,

Por toda a parte, desde a Alta a Baixa, a lente !



Cancioneiro de Coimbra n3



E ao por-do-Sol no Caes, contemplando o Mondego,

Honestos bachareis sao nostos em socego

E mal a cabra hala aos Ventos os seus ais,

Speech de quarto d'hora em palavras eguaes,

Os tristes bachareis recolhem ds nerdades,

Como na sua aldeia, ao baterem Trindades.

Bern me dizias tu, como que adivinhando

O que isto para mini seria, Manoel, quando

O anno passado, vim contra tua vontade

Matricular-me, ahi, n'essa Universidade :

Anto, nao v^s. . . dizias tu. Eu, fraco, vim.

Mas certamente, e natural, nao chego ao fim.

Ah quanto fora hem melhor a formatura,

Na Escola-Livre da Natureza, Mae pura !

Que optimas preleccoes as preleccoes modernas,

Cheias de observac^io e verdades eternas,

Que faz diariamente o Proff Oceano !

Jd tinha dado todo o Corafao Humano,

Manoel, faltava um anno so para acabar


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