Afonso Lopes Vieira.

Cancioneiro de Coimbra online

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Meu curso de Psychologia com o Mar.

Porque troquei pela Coimbra de avela

Essa Escola sem par, cujo Reitor e Pan ?

Talvez. . . preguica, eu sei. . . A cabra e a cotovia :

As aulas, la, comecam, mal aponta o dia !

Que tedio o meu, Manoel ! Antes de vir, gostava.

Era a distancia, o alem. que me impressionava :
Tinha o mysterio do Sol por, d'uma esperanca.
Mas, mal cheguei ( que esnanto ! eu era uma crianca )
Tudo rolou no solo ! A 'Pasca das Camellas
Para mim era um sonho, o Ceu cheio de estrellas :
Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
Por 6 e 5! Mas ah ! foi-se a Virgem d'antes
Tia Camella. . so ficou a camehce.

Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,

Que Hildas coisas a lendaria Coimbra encerra !

Que payzagem lunar que e a mais doce da Terra !

Que extraordinarias e medievas raparigas !

E o rio ? e as fontes ? e as fogueiras ? e as cantigas ?

As cantigas ! Que encanto ! Uma diz-te respeito,

Manoel, e um sonho, c um beijo, e um amor-perfeito.



H4 Cancioneiro de Coimbra



Onde o luar gelou : Manoel ! tao lindas mocas !
Manoel ! tio lindas sao. . .

Que pena que nao oucas I

O que, ainda mais, n'esta Coimbra de salgueiros
Me vale, sao os meus alegres companheiros
De caza Ao pe d'elles e sempre meio-dia :
Para isso basta entrar o Mario da Anadia.
Ate a Morte e branca e a Tristeza vermelha
E riem-se os rasgoes d'esta batina velha !
Conheces o Fernando ? a Graca que elle tern !
Da inda uns ares de Fr. Gil de Santarem. . .
Pallido e loiro, em si toda uma Hollanda canta
Com algum Portugal. . . E o doce Misco ? Sancta
Thereza de Jezus vestida de rapaz. .
Porque nao vens, Manoel, ungir-te d'esta Paz ?

Vem a Coimbra. Has-de gostar, sim, meu Amigo.

Vamos ! Da-me o teu brac,o e vem d'ahi commigo

Olha. . . Sao os Geraes, no intervallo das aulas.

Bateu o quarto. Ve I Vem sahindo das jaulas

Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes.

Ao vel-os, quern dira que sao os descendentes

Dos Navegantes do seculo XVI ?

Curvam a espinha, como os aulicos aos Reis I

E magros ! tristes ! de cabe<;a derreiada !

Ah I como hao-de, amanha, pegar em uma espada ?

E os Douctores ? Ahi os tens, graves, d porta.

Porque te ris ? Olhal-os tanto. . . Que te importa t

Ha duas excep^oes : o mais, sao todos um :

Quaresma d'Alma, sexta-feira de jejum. . .

Nao quero entanto, meu Manoel, que vas embora

Sem ver aquelle amor que a minha alma adora :

Olha, acola. Gigante, altivo como um cedro,

Olhando para mim com ternura : e o meu Pedro

Penedo 1

O' Pedro da minh'alma ! meu Amigo !
Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo I
Mai diria eu em pequenito, quando a ama
Para eu me callar, vinha fazer-me susto a" cama,
Por ti chamava : Pedro ! e eu socegava logo,
Que eras tu o Papao! A ama, de olhos em fogo r



Cancioneiro de Coimbra n5



Imitava-te p andar, que nao era bem de homem. ..
Eu tinha birras ? Ahi vem o Lobishomem !
Dizia ella Bate & porta 1 Truz 1 truz I truz !
E tu entravas, Pedro, eu via ! Horror ! Jezus I

Meu velho Pedro ! meu phantasma de crian<ja I
Quero-te bem, tanto que tenho na lembranija,
Quando morreres, Pedro I ( o Pedro nunca morre)
Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
Com todo o meu csmero e. . . zas ! metter-te dentro I
Pedro ! assim hcas enfrascado, ao alto e ao centre,
E eternamente, para espanto dos vindoiros :
No rotulo porei : Alli-Bed, Rey dos Macros.



Coimbra, 1888-1889-1890.



PARA AS RAPARIGAS DE COIMBRA

O' choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nos,
Es tal qual meu Avozinho :
Falta-te apenas a voz.



Minha capa vos acoite
Que e p'ra vos agazalhar :
Se por fora e cor da noite,
Por dentro e cor do luar. . .



O' sinos de Santa Clara,
Por quern dobraes, quem morreu ?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Ceu 1



Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei I
Mondego, qu'e" da tua agoa,
Qu'e dos prantos que eu chorei ?



u6 Cancioneiro de Coimbra



No inverno nao tens fadigas,
E tens agoa para leoes !
Mondego das raparigas,
Estudantes e violoes !

Therezinhas ! Ursulinas I
Tardes de novena, adeus !
Os coracoes as hatinas
Que diriam ? sabe-o Deus. . .

O' bocca dos meus dezejos,
Onde o padre nao poz sal,
Sao morangos os teus beijos,
Melhores que os do Choupal !

Manoel no Pio repoiza.
Todas as tardes, Id vou
Ver se quer alguma coiza,
Perguntar como passou.

Agora, sao tudo amores
A' roda de mim, no Caes,
E, mal se apanham douctores,
Partem e nao voltam mais. . .

O' Fogueiras, 6 cantigas,
Saudades ! recordacoes !
Bailae, bailae, raparigas !
Batei, batei, coracoes !

Coimbra, 1890.



ALBERTO D'OLIVEIRA

BALLADA DOS ESTUDANTES

Adeus Coimbra, terra de encantos,
Flor do Mondego, la diz a trova. . .
Flor tao bonita, quj os proprios Santos,
Por teu aroma, fogem da cova,



Cancioneiro de Coimbra 117



E veem ds noites, com alvos mantos,
Comer com beijos a lua nova !

C6ro : Sao nossos prantos, sao nossos cantos,
Como perpetuas sobre uma cova :
Adeus Coimbra, terra de encantos,
Flor do Mondego, Id diz a trova !

Vojr : Adeus piquenas, com quern dansamos
Pelas fogueiras do San-Joao :
Quern sabe ate se Id nao deixamos,
Desfeito em cinzas, o corac.ao ?
Com vossos olhos fazei os ramos
Para cobrirdes o meu caixao !

C6ro : Ai que olhos negros, juntos aos pares,
Florindo as cinzas do corac/io
Adeus Coimbra, toJa em cantares,
Em desgarradas ao San-Joao !

Voj : Em sendo mortos, com negra sina
Jd terminada no Mundo breve,
Ld das estrellas, nossa Alma deve
Ver no Passado ( castello em ruina )
A negra capa mai la batina,
Brancas de neve, brancas de neve !

C6ro : E choraremos o tempo de antes,
Faremos coro com os i oetas :
Adeus Coimbra dos estudantes,
Das raparigas como violetas !

Vo? : Ai tu nao davas, com teus licores,
Para matar uma sede de agua,
Rio Mondego falto de cores,
E tao sequinho que fazes magua. . .
E, emtanto, os olhos dos meus Amores
Sao como duas nascentes de agua !

C6ro : Da de beber ao pobre do rio

Pelos teus olhos, como em I'.ethlem,
Duas fontinhas correndo em Ho
Aos lavadoiros da Virgem-Mae !



n8 Cancioneiro de Coimbra



Vof : Alvas de prata ! Poentes de oiro !
Choupos tecidos por maos de fadas !
At>uas do rio correndo em choro
Dos olhos negros das Namoradas !
E as folhas seccas, cantando em coro
Ave-Marias em sendo dadas !

C6ro : Teus Jardins sao como campos-santos,
Campas de freiras, quern sabe ? eu piso :
Adeus (-oimbra, terra de encantos,
Adeus ate ao dia de Juizo I

ANTONIO H. DE MELLO (TOY)

CANTIGAS

3A na rua da Canada
Vi uma pedra a chorar,
Por tu passares por ella
E fugires de a pisar

Ignez, Senhora das Lagrimas,
Tu choraste tanto, tanto,
Que hoje a Fonte dos Amores
Ainda verte o teu pranto.

Teu seio e uma arrufada

E um manjar branco o teu rosto ;

Gomel-os todos com beijos

E' que era todo o meu gosto.

Meu amor e quintanista,
Quintanista de Direito :
Traz uma pasta na mao,
Mas a mim traz-me no peito.

Coimbra tern trez Penedos :
E' um da Meditacao,
O segundo da Sauddde,
Terceiro o teu cora<jao.

No Penedo da Saudade
Colhi um amor perfeito. . .
Era branco, fez-se roxo,
Logo que eu o puz ao peito.



Cancioneiro de Coimbra 119



Passei numa sexta-feira
Pelo Arco da Trai9ao. . .
E os teus olhos assaltaram-me,
Levaram-me o cora^ao.

Ao Penedo da Saudade

Fui em cata do Passado. . .

Disse-me la o Sol-Posto :

Nunca mais serei Sol-Nado. . .

Ao Penedo da Saudade

Todos se vao recordar ;

Todos dizem : bem me lembro !

Quantos voltam a chorar. . .



D. THOMAZ DE NORONHA

EXCERPTO

O curso do Mondego, esmorecido,
Perpassa vagaroso e tao estreito,
Que mal se pode ver em que sentido.

Nenhum murmurio sobe do seu leito,
Nas margens tudo soffre ; ai do coitado
Em que o Outomno poe seu duro effeito :

Ou seja flor silvestre ou mansp gado,
Ave que emigre ou recolhido insecto,
Freixo altaneiro ou choupo desfolhado. . .



GUEDES TEIXEIRA

COIMBRA

I

Tardes de Coimbra ensanguentadas, vesperaes,
Com bordados no ar dos Choupos e Olivaes. . .
Horas do meu Sentir : horas do meu Scismar,
Em que a Paizagem toma os tons verdes do mar.



i2o Cancioneiro de Coimbra



Tardes de Coimbra, a hora em que o Sol esmorece
E em que os Poentes a arder sao como loura messe
Com papoulas em sangue e cantos de cigarras.. .
Coimbra, ao entardecer, com pruridos de guitarras,
Lirios no coracao, tricanas a dansar,
E as azas do Senhor na ascensao do Luar f
E a essa hora indecisa hora da Nostalgia !
Ponho-me a olhar, a olhar a verde ramaria,
Como se nella houvesse algum cruel mysterio. . .
E Id vou eu entao, de ao pe do Cemiterio,
Co'os cabellos ao vento e a Alma angustiada,
Metter no coracao a Noute luarisada
E cobrir com o alvor dum sonho crystalino
A derrocada atroz do meu negro destine !
Desc.0 depois, noute aha, o monte sem ninguem,
Destaca ao longe a Lua como um bdjo aceso . .

O Amor na minha Alma e uma Lua tambem,
Que me levanta ao Ceu aonde me sinto preso !
E digo adeus a Vida ; ao Mundo eu digo adeus,
Porque em rails de luar, num comboio d'estrellas,
Vou partir afinal para a Chanaan dos Ceus...
Rapangas que amei, vinde as vossas janelas
Riscar-me com o olhar p meu itinerario. .

Cada estrella que brilha e um amor que eu chore! !
E. . . quando eu for distante, a luz do Luar, Hylario,
Eu quero ouvir cantar os Versos que te del !

II

Um ceu azul-ferrete amortece o Choupal,

Corpo feito de relva e veias de crystal,

Que me abraca e me beija onde quer que eu me chego.

Remexe-me os pulmoes em ondas o oxigenio. . .

Raparigas, lavando a beira do Mondego,

Vao dizendo cancoes com um sabor a genio.

Falto as aulas. . .



C estd a Fonte. E, triste, eu fico a idealisar
A minha Noiva ali sob um verde chorao :
Seu vestido ha de ser da cor do seu olhar,
Na tranca, em vez da flor, pora meu coracao !
Deriva o meu Scismar numa profunda magua,



Cancioneiro de Coimbra 121



Como aquellas com que eu os meus versos componho.
E } como alguem que fosse a despertar d'um sonho,
Smto a bocca a dizer. . . que lagrimas sao a git a. . .

Ill

. . . Nao ouves tu, Amigo, os Choupos a fallar ?
Dizem elles que amei uma linda Pnnceza,
E que morri depois numa noite de Luar !
Bern os ouves dizer que p'las noutes eu ia
AH para o Jardim dizer, como quern reza,
Urn nome que so tu e mais ninguem sabia !.. .



AUGUSTO GIL

I Raparigas : nao vos fieis nestes versos
escritos numa hora de crepusculo, espiri-
tual e casla. Amae, amae estouvadamente.
Que as vossas bcas se esvasiem de beijos,
que os vcs-sos putos entumesfam de leite,
que os vossos venires frutifiquem ).

Tricaninhas d'olhar opalescente,
De riso claro e sororal aspeito,
Quando por noites de luar dormente,
Capas ao hombro, bandolins ao peito,

Vos passarem a porta os estudantes,
Que o vosso coracao nao bata mais
Rapidamente que batia dantes,

Que o vosso coracao de cera branda,
Ganhe a tenacidade dos metais
Quando o trinar dolente da siranda,
Passar na rua aonde vos morais.

Considerai nas vossas companheiras
Que tantos sonhos atearam quando
Bailavam invioladas nas fogueiras,

Olhai a Elvira, d'olhos cor de me),
De tranca farta e de sorriso brando,
Vede como o setim da sua pele,
- Tao lindo que era, agora vae murchando. . .



122 Cancioneiro de Coimbra



E aquela, meio ingenua, meio louca,
A Assumpcjiosita de perfil hebreu
Que ja tem rugas a afeiar-lhe a boca,

E diz que a sua boca envelheceu
Na lide, na fadiga permanente
Dos beijos que emprestou e recebeu'
Com largos juros, usurariamente. . .

E a Izabelinha, essa d'olhar d'anhidro,
Que poz nas almas dos que a viram pert*
Os sulcos que o diamante faz no vidro...

E a Julia, macerada como as santas,
Esbelta e gracil como um lirio aberto,
E tantas outras tricaninhas, tantas. . .

Foi a siranda que as perdeu, de certo.

Tiveram, como vos, um rosto Undo,
Bocas em flor, peitos radiando esp'ranija,
E olhos que as vissem, iam-nas seguindo,

Seguindo ate ao mais que a vista alcanna.
Ergueram-lhes os poetas, em louvor,
Como trofeus na ponta duma lanca,
Sonetos, madrigais, odes d'amor.

Guitarras flebeis e violoes chorosos
Passavam noite velha ds suas portas,
Pedindo beijos, insinuando gosos. . .

E escutavam extaticas, absortas,

Os olhos incendidos como brazas
Vozes cantando-as pelas horas mortas
Numa caricia de runantes azas. . .

E deixou-se embalar naqjelas trovas
Ligeiras, fementidas. perturbantes,
O seu amor de raparigas novas,

As capas negras desses estudantes,
Capas escuras como po<;os fundos,
Fizeram-lhes sonhar ideais distantes,
Outros ceus, outros astros, novos mundos.



Cancioneiro de Coimbra 123



Depois. . . depois, entre saudades e ais
( Que isto d'amores, pouca dura tern )
Foram-se embora, nao voltaram mais,

Igual destine hemos de ter tambetn. . .



DOMITILLA DE CARVALHO

NO CHOUPAL

Tristes choupos doentes, a morrer,
Brazos longos erguidos numa prece,
Qualquer de vos ao meu olhar parece
A sombra fugidia do meu ser.

Vi-vos putrora ao lindo amanhecer

D'um dia que tao cedo me anoitece;

Mais tarde, na aleluia de ascender

Para um sol. . . que hoje brilha e nao aquecel.

Sob o ceu pardacento, que mal vejo,
Vai galopando o funebre cortejo
Dos vossos corpos nus e descarnados.

Nem vestigios diviso d'outras eras,
Quando o riso das vossas primaveras
Embalava os meus sonhos encantados. . .

Outono. Em viajem.

AFFONSO LOPES VIEIRA

LINDA INKS

Choram ainda a tua morte escura
Aquelas que chorando a memoraram ;
As Idgrimas choradas nao secaram
Nos salidosos campos da ternura.

Santa entre as santas pela md ventura,
Rainha, mais que todas que reinaram ;
Amada, os teus amores nao passaram
E es sempre bela e viva e loira e pura.



124 Cancioneiro de Coimbra



O Linda, sonha af, posta em sossego
No teu muymento de alva pedra fina,
Como outrora na Fonte do Mondego.

Dorme, sombra de graca e de saudade,
Colo de Ganja, amor, mo^a menina,
Bem-amada por toda a Eternidade !




ESTORIA DA RAINHA SANTA

(Do Romanceiro do arquipelago da Madeira)

Ao Padre-Santo pediu
lo senhor Dom Manoel
que Ihe confirmasse santa
la rainha Isabel.

Esta rainha tap santa,
mulher d'el-rei Dom Denis,
so fez por servir a Deus,
e ele fez quanto quis.
Todal las suas esmolas
so em secreto las dava :
e uma vez qu'escondidas
no regaco las levava,
um cavaleiro privado
a el-rei la delatava :
e el-rei, de cubicoso,
acorreu, e preguntava :
Que levais ai, senhora,
nesse regacjo tamanho ?

- Eu levo cravos e rosas,
que outras coisas na tenho

Nem sequer ha maravilhas ;
menos cravos, em Janeiro !
Ou serao esmolas isso,
ou isso sera dinheiro ?
La rainha na falou ;
so lo regaco abriu :
e eram cravos e rosas,



126 Cancioneiro de Coimbra



que dinheiro. . . na se viu.
Doutra vez foi recolher se ;
seu pobre n'alcova achou ;
e logo lo despe e lava,
e na cama lo deitou.
Lo cavaleiro privado
a el-rei la delatou ;
e el-rei, de suspeitoso,
acorreu, e Ihe raivou :

Pelejo vosco, senhora,
que sou de vos agravado.
Na cama em qu'eu me deito
quern nela estd deitado ?
E, mui iroso, el-rei

las roupas alevantou :
viu Jesus crucificado,
e logo ajoelhou.
E disse :

Meu Bom-Jesus do Calvario,
meu Jesus crucificado,
emendai la minha vida,
emendai lo meu reinado .

La nossa Rainha Santa
outros milagres obrou :
a uma cega deu vista,
e outra, muda, falou ;
outra. que na tinha leite,
lo filhinho aleitou ;
e, com tamanhos milagres,
santa, bem santa, ficou.



ROMANCE DE DONA INES

(Lifao Ms. do seculo XVIII)

Dos ricos pacos de Coimbra
nobre Infante se partia,
com seus pagens e criados
para rial montaria.
Vai em ginete formoso,
que encantava quem o via ;



Cancioneiro de Coimbra 127



leva seu a<;6r em punho
falcoeiro a quem cumpria.
Da mui bela Dona Ines
com amor se despedia,
mal sabia seu esposo
que nunca mais a veria !
Embu<;ado no seu manto
o belo rosto cobria ;
para nao verem o pranto
que de seus olhos corria.
No seu ginete alazao
oh que saudoso que ia !

Onde vais, senhor Intante ?
Mal haja tal montaria !
Mau fado, senhor Dom Pedro,
te traz essa romaria,
volta depressa a teus pacos
que matam tua alegria !
Mas em vao, que seu faddrio
destinado assim o havia I
Ficou sozinha a esposa
tao exposta a tirania.
A sua voz maviosa
toda a noite se ouvia,
cantando suas saudades
com mui triste melpdia ;
seu cantar mui lastimoso
neste sentido dizia :

Meu Infante, meu senhor,
que me deste a regia mao,
escuta la d'onde estas
da tua Ines a can^ao.

Jd nao podem meus suspires
chegar ao teu coracao ;
repitam monies e vales
de tua Ines a cancao.

Em prantos mui lastimosos
estd esta habitacao ;
so se ouve nestes pacos
da tua Ines a cancao.'



128 Cancioneiro de Coimbra



Os meus olhos tao quebrados
sangue choram, que al nao !
Sabem de cor estes vales
da tua Ines a cancao .



OS ESTUDOS DE COIMBRA

( Despique de conversados )

Os estudos de Goimbra
para te amar aprendi ;
com penas e saudades
uma carta te escrevi.
Com penas e saudades
o meu coracao chorou ;
a carta que me escreveste
ainda ca nao chegou.

Antoninha, cara linda,
eu queria-te falar;

a vergonha me retira,
o amor me faz chegar.
Eu falar-te, falaria
de todo o meu coracao ;
quern me dera adivinhar
qual era a tua tencao.

A minha tenijao e boa,
mas e so para comtigo ;
se eu sair desta terra
heide-te levar comigo.

Eu comtigo nao iria,
que diria a minha gente ?
Que ficdra desta terra
desterrada para sempre.

(3 menina, nao se assuste,
nao e caso de assustar ;

se eu em fama te meter,
da fama re hei de livrar.
Eu a fama nao a tenho,
mas ela me pode vir ;
fale baixo, nao acorde
meu pai, que estd a dormir.

Teu pai, que estd a dormir,



Cancioneiro de Coimbra 129



estd em sono sossegado ;
di-ja-m-:. 6 minha menina,
se eu serei do teu agrado ?
c Oh, do meu agrado e,
que mats o nao pode ser;
ausente da minha vista,
melhor me fora morrer .



CANTICO DAS FREIRAS

de S.t<* Clara de Coimbra, que era entoado
junto do tumulo da Rainha Santa

C6ro : Rainha Santa, esclarecida,
rogai a Deus eternal,
que nos de Gra^a e de vida.
S.mta Isabel, escolhida
Rainha de Portugal.

Vof : Aquele sceptro e coroa,
so por Deus deixastes vos,
e viestes em pessoa
viver aqui entre nos.
Pois o vosso corpo temos
aqui, pr dom celestial,
Grd<;a do Senhor queremos
para que nos imitemos
vossa vida Angelical.

Pedi a Nosso Senhor
que nos de vida e de Gloria,
e que a" alma de vitoria
quando da vida se for.
Fostes Rainha Sagrada,
em sautidade Rial,
que, de honesta e humilhada,
e a observancia ligada,
trouxestes sempre o sinal.

As vossas devotas, pois,
por vossa mao amparai,
c tambem a Deus rogai
que nos faca como sois.



i3o Cancioneiro de Coimbra



De continue imploraremos
socorrp Celestial,
constantemente nos temos,
e a 'Deus Trino imploraremos
por meio tarn principal.

Que assim como heis alcan9ado
coroa de vida Eterna,
este convento humilhado
bem deseja a semniterna ;
e istp com vosso favor,
com intercessora tal,
Santa Isabel de valor,
Rainha de Portugal,
rogai por nos ao Senhor.

CANTIGAS POPULARES

Coimbra, nobre cidade,
onde se formam doutores ;
aqui tambem se formaram
os meus primeiros amores.

O Coimbra, 6 Coimbra,
que fazes aos estudantes ?
veem de casa uns santinhos
e vao de ca uns tratantes.

O amor de um estudante
nao dura mais que uma hora :
toca o sino, vai pr'as aulas,
vem as fenas, vai-se embora.

A capa do estudante
e" como um jardim de flores,
toda cheia de remendos,
cada um de varias cores.

A sua capa, senhor,
vale abra<jos, vale beijos ;
foi feita de trancas pretas,
foi tecida com desejos.



Cancioneiro de Coimbra i3i



<3 minha mae nao me mande,
a Coimbra vender pao,
que hi vem n'os estudantes :
Padeirinha de fei^ao.

Igreja de Santa Cruz,
toda de pedra morena,
dentro de ti ouvem missa
uns olhos que me dao pena.

Coimbra, nobre cidade,
bem te podem chamar corte,

3ue tens a Rainha Santa
a banda d'alem da ponte.

O cidade de Coimbra,
arrazada sejas tu
com beijinhos e abra^os. . .
Nao te quero mal nenhum !

Em Coimbra tenho o cprpo,
em Santa Clara os sentidos ;
no convento os meus amores
la ficaram recolhidos.

Fui a fonte do Cidral
encher o meu cantarinho ;
minha sogra me ajudou
e mais o meu amorzinho.

O meu amor 6" estudante,
estudante de latim ;
s'ele se chega a formar
ninguem tenha do de mim.



Campos verdes de Coimbra,
cheios de canaviais. . .
Quern se fia em estudantes
o que recebe sao ais.



1 32 Cancioneiro de Coimbra



Nao me lembrava Coimbra
nem que tal cidade havia;
agora nunca m'esquece
nem de noite nem de dia.

Atirei c'um limao verde
de Santa Clara ao cais,
para ver se m'esquecias. . .
Cada vez m'alembras mais.

Estudantes de Coimbra
moram por baixo da ponte ;
por causa das raparigas
muito $apato se rompe.

Inda agora aqui passou
Antonmho p'ro estudo :
cara de neve coalhada,
olhos de limao maduro.

;

Ja da" o sol na Calcada,
tambem da" em Santa Cruz,
tambem da nesse teu peito,
Emilinha de Jesus.

Os areais de Coimbra

semeados que darao ?

Darao meninas bonitas s

para a minha perdicao.

Se Coimbra fosse minha
como e dos estudantes,
mandava-a logo cercar
de vasos de diamantes.



Quern me dera agora estar
onde tenho o pensamento :
desta terra para fora,
de Coimbra para dentro.



Cancioneiro de Coimbra i33



Nunca eu fora a Coimbra
nem passara por Sansao ;
nunca vira esses teus olhos
que tanta pena me dao.

Rio que vais para baixo,
que nao voltas para cima :
no, leva-me uma carta
ao meu amor de Coimbra.

Daqui a Coimbra e longe,
nao chegam Id meus sentidos ;
mas se acaso Id chegarem,
chegam mais mortos que vivos.

J& pedi que me enterrassem
no areal do Mondego ;
para ouvir os esiudantes,
para ter algum sossego.

No colegio de Coimbra
para te amar aprendi ;
com pena de te nao ver,
uma carta te escrevi.

O casaria de Coimbra,
toda branca de luar
Id na janela mais alta
esta o meu amor a estudar.

Coimbra, nobre cidade,
onde se vai a preguntas ;
e de Id que hei de trazer
sete rapangas juntas !



Linda terra e Coimbra
a mirar-se no Mondego :
e com'd mulher vaidosa
que se estd a ver ao espelho.



1 34 Cancioneiro de Coimbra



Quando eu era rapariga
ia d tarde ao O da Ponte,
namorar um estudante
assentadinho defronte.

Meu amor, eu dou-te um raio,
um raio do meu olhar :
tu dele faz candieiro
para de noite estudar.

A cidade de Coimbra
nao ha outra em Portugal :
tern Id reis, tern la rainhas,
e uma cidade Rial.

Rainha Santa Isabel,
ao alto de Santa Clara :
trazei-me aqui o meu hometn
que nao sei adonde para.

Rainha Santa Isabel,
que destes esmola ao pobre :
hei de vos dar um manto
da cor do ceu que vos cobre.

Eu hei de ir p'lo San Joao
a fonte do Castanheiro,
para ver um estudante
que e o meu amor primeiro.

6 laranjais de Coimbra,
nao torneis a dar laranjas !
Quern comigo as apanhava
jd la esta nessas estranjas. . .



Adeus, 6 largo da Feira,
cercado de craves brancos,
onde o meu amor passeia
Domingos e dias santos.



Cancioneiro de Coimbra i35



Adeus, ponte de Coimbra,
aguas claras do Mondego.
Diga-me, minha menina,
se quein ama tern sossego ?

Adeus, 6 fonte de Ines,
onde ela chorou p'lo rei ;
tambem a agua dos meus olhos
co'a tua jd misturei.

Adeus, 6 rua Direita,
rua Direita aos Loyos ;
ao cimo daquela rua
namorei esses teus olhos.

Adeus, plivais do Pio,
cemiterio da ternura,
onde eu hei de ir enterrar
a minha pouca ventura.



LAUS DEO,
MONDAE LAUDES



ADDENDA 6- CORRIGENDA



VELHOS CANTARES. Se no piano deste Cancioneiro
nao se adoptasse a localizacjao directa como condiciio
essencial, a primeira composite que nele teria entrado,
seria o palpitante cantar de D. Gil Sanchez, o bastardo del
rei D Sancho e da celebrada Ribeirinha, clerigo que amou
D. Maria Garcia de Sousa, dona que em Montemor vivia.

Este cantar, que a seguir se estampa, e pois a mais
antiga das poesias ligadas a Coimbra onde se cuida que
fala o trovador depois dessa outra que el rei D. Sancho
compos para a sua amada espalhar em Coimbra suas pro-
prias saudades, e que fica para nos, nao apenas como a
avo veneravel (e quam adoravel e moca) do nosso Lirismo,
mas ainda do linsmo tradicional dos saudosos campos.
Eis os formosos versos :

Tu, que ora vSes de Monte maior,
tu, que ora vees de Monte maior,
digas-me mandado de mia senhor,
digas-me mandado de mia senhor,

ca, se eu seu mandado

non vir, trist'e coitado

serei, e gran pecado

fara, se me non val,

ca en tal ora nado

foi que, mao-pecado I

amo-a endoado

e nunca end'ouvi al !

Tu, que ora viste os olhos seus,
tu, que ora viste os olhos seus,
digas-me mandado d'ela, por Deos,
digas-me mandado d'ela, por Deos,

ca, se eu seu mandado


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